Por Fernando Garayo

A atitude do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (republicano), de conceder a mais alta honraria do Estado ao presidente argentino Javier Milei carrega um simbolismo político que dificilmente pode ser ignorado. Mais do que uma deferência diplomática, o gesto ocorre em um momento de forte tensão comercial entre Brasil e Estados Unidos, justamente quando a economia paulista enfrenta os efeitos das tarifas impostas pelo governo de Donald Trump sobre produtos brasileiros.
Milei é um dos mais fiéis aliados políticos de Donald Trump na América Latina. Os dois compartilham uma agenda ideológica e mantêm uma relação de apoio mútuo. Ao homenagear Milei justamente agora, Tarcísio envia um sinal político que contrasta com os interesses econômicos do próprio Estado que governa.
São Paulo é o maior parque industrial do país e o principal estado exportador do Brasil para o mercado norte-americano. Setores como aeronáutico, máquinas, papel e celulose, café, suco de laranja, produtos químicos e manufaturados dependem significativamente das vendas aos Estados Unidos. As novas tarifas americanas afetam parte importante dessas exportações, elevando custos e reduzindo a competitividade das empresas brasileiras. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços apontam que as medidas tarifárias dos EUA atingem uma parcela relevante das exportações brasileiras e contribuíram para a redução do comércio bilateral ao longo de 2026.
Nesse contexto, a condecoração levanta uma questão política inevitável: qual mensagem está sendo transmitida aos empresários paulistas e aos trabalhadores que podem sofrer os efeitos dessa disputa comercial?
O papel de um governador é defender, antes de tudo, os interesses econômicos e sociais do seu Estado. Em momentos de crise comercial, espera-se liderança na defesa da indústria, da geração de empregos e da competitividade das empresas paulistas. Em vez disso, a homenagem a um aliado de Trump pode ser interpretada como um gesto de alinhamento ideológico em um momento em que São Paulo necessita de firmeza institucional para proteger sua economia.
Recentemente, o próprio Tarcísio afirmou que “não tem nada a ver” com o tarifaço imposto pelos Estados Unidos, embora posteriormente tenha defendido a continuidade das negociações diplomáticas. Mas, ao conceder uma das maiores honrarias do Estado a um dos principais aliados internacionais do presidente norte-americano, sua atuação política inevitavelmente ganha uma dimensão simbólica.
Na política, gestos também comunicam prioridades. E, quando uma homenagem desse porte coincide com um cenário em que empresas paulistas enfrentam incertezas provocadas pelas tarifas americanas, é natural que surjam questionamentos sobre a coerência entre o discurso de defesa da economia paulista e os atos praticados pelo governador.
Governar exige distinguir afinidades ideológicas do interesse público. A principal obrigação de um chefe do Executivo estadual é proteger a economia de seu Estado e aqueles que dela dependem. Quando essa prioridade parece dividir espaço com demonstrações de alinhamento político internacional, o debate deixa de ser apenas protocolar e passa a envolver a responsabilidade de quem representa milhões de paulistas.
Descubra mais sobre NJ Notícias
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.






