Por: Fernando Garayo- jornalista e Cientista Político

A decisão da campanha de Flávio Bolsonaro de recorrer à Justiça contra a pesquisa divulgada nesta terça-feira revela mais do que indignação eleitoral: revela o velho incômodo de políticos com o espelho da opinião pública quando a imagem refletida deixa de ser favorável.
Segundo levantamento da AtlasIntel/Bloomberg, Flávio caiu seis pontos percentuais nas simulações de segundo turno contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, após a repercussão dos áudios envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o Banco Master.
O problema é que processo judicial não funciona como maquiagem estatística. Não adianta tentar interditar termômetros quando a febre política começa a aparecer. Pesquisas eleitorais podem errar margens, metodologias e tendências — e devem ser questionadas tecnicamente quando houver indícios concretos de irregularidade —, mas transformar toda queda em “conspiração” é um caminho perigoso para qualquer democracia.
Se a estratégia da campanha for processar cada instituto que apontar desgaste eleitoral, será preciso montar uma força-tarefa jurídica permanente. Porque a tendência, ao que tudo indica, é de novas quedas caso o tema continue dominando o debate público. A política moderna funciona pela percepção. E quando um candidato passa a ser associado diariamente a escândalos, suspeitas ou relações desconfortáveis com o sistema financeiro, o impacto nas pesquisas costuma ser inevitável.
Há ainda uma ironia curiosa nisso tudo: durante anos, setores do bolsonarismo exaltaram pesquisas quando elas eram favoráveis e desacreditaram institutos quando os números contrariavam suas expectativas. A lógica parece simples: se sobe, é verdade; se cai, é fraude. Mas democracia não pode funcionar na base do placar emocional.
O eleitor brasileiro goste-se ou não dele, percebe desgaste. E desgaste político não se combate com liminar. Combate-se com credibilidade, coerência e capacidade de convencer a sociedade de que as explicações dadas são suficientes.
No fim, a Justiça pode até analisar questionários, metodologia e formulação das perguntas. Mas ela não conseguirá obrigar a opinião pública a gostar de um candidato. Nem conseguirá impedir que a desconfiança, uma vez instalada, se espalhe silenciosamente pelas ruas, pelas redes e pelas urnas.
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