Por: Fernando Garayo- Jornalista e Cientista Político

Na ciência política, existe um conceito clássico chamado capital político. Ele funciona como uma espécie de moeda simbólica: confiança, credibilidade, carisma, identificação ideológica e capacidade de mobilização. Políticos acumulam esse capital ao longo do tempo — e podem perdê-lo rapidamente quando surgem escândalos que contradizem o discurso que venderam ao eleitorado.
No caso do senador Flávio Bolsonaro, o impacto do escândalo envolvendo o Banco Master parece menos ligado ao valor financeiro em si e mais ao simbolismo político da operação. Segundo reportagens recentes, mensagens e áudios divulgados mostram Flávio cobrando repasses milionários do banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, produção sobre seu pai, Jair Bolsonaro. Os valores citados girariam em torno de R$ 61 milhões já pagos, podendo chegar a mais de R$ 120 milhões.
Do ponto de vista da ciência política, há três fatores centrais que podem provocar erosão eleitoral:
- A contradição narrativa
O bolsonarismo construiu sua identidade pública em torno do combate à corrupção, da crítica às elites financeiras e da ideia de “nova política”. Quando surge uma associação entre um dos principais herdeiros políticos do movimento e um banqueiro investigado em um escândalo bilionário, cria-se um fenômeno chamado de dissonância cognitiva eleitoral.
O eleitor tolera escândalos quando eles confirmam sua visão de mundo. Mas reage mal quando percebe incoerência entre discurso e prática.
Não é necessariamente o dinheiro que destrói reputações políticas. O que destrói é a sensação de hipocrisia.
- O efeito comparativo da polarização
O Brasil contemporâneo vive um processo de “moralidade comparativa”. Em vez de perguntar “isso é correto?”, parte significativa do eleitor pergunta: “o outro lado fez pior?”.
É nesse contexto que entram as comparações feitas pelos bolsonaristas com os pagamentos ao escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes. Reportagens apontam contratos que poderiam chegar a R$ 129 milhões com o Banco Master, com pagamentos superiores a R$ 80 milhões em dois anos, segundo documentos obtidos por investigações e divulgados pela imprensa.
Politicamente, isso produz um mecanismo conhecido como whataboutism: “e o outro lado?”. Trata-se de uma estratégia clássica de neutralização moral. Em vez de negar completamente o fato, desloca-se o debate para a suposta incoerência do adversário.
Essa técnica costuma funcionar muito bem em ambientes altamente polarizados, porque reduz perdas dentro do núcleo duro do eleitorado. Porém, ela raramente impede desgaste entre eleitores moderados, independentes ou menos ideológicos.
- O simbolismo cultural do dinheiro
Há ainda um terceiro elemento importante: a natureza do gasto.
O cinema nacional frequentemente é alvo de ataques de setores conservadores, acusados de receber verbas públicas elevadas para produções consideradas ideológicas. Nesse contexto, a revelação de que um filme exaltando Jair Bolsonaro teria orçamento milionário financiado por um banqueiro investigado cria uma ironia política poderosa.
A crítica que antes era direcionada ao cinema nacional passa a retornar como um espelho.
A diferença fundamental é que muitas produções brasileiras premiadas internacionalmente foram financiadas por mecanismos públicos transparentes, previstos em lei, com editais e prestações de contas. Já o caso envolvendo Dark Horse gira em torno de financiamento privado ligado a um empresário investigado por fraudes bancárias.
Na percepção pública, porém, nuances jurídica frequentemente importam menos do que imagens simbólicas.
E a imagem simbólica aqui é devastadora para parte do eleitorado:
um movimento que denunciava “mamatas culturais” agora aparece associado a um filme político financiado por cifras milionárias.
O tamanho provável do desgaste
Pela lógica da ciência política, o dano eleitoral tende a ocorrer em três níveis:
- Baixo impacto no núcleo bolsonarista fiel, que provavelmente enxergará perseguição política ou equivalência moral com outros casos.
- Impacto médio entre conservadores pragmáticos, especialmente os ligados ao mercado financeiro e ao discurso anticorrupção.
- Impacto maior entre indecisos e eleitores de centro, porque escândalos financeiros corroem justamente a ideia de renovação moral.
Há ainda um detalhe importante: escândalos têm efeitos cumulativos. Um caso isolado pode ser absorvido. Mas quando um político passa a ser associado continuamente a investigações, vazamentos, áudios e relações obscuras com empresários investigados, ocorre aquilo que cientistas políticos chamam de fadiga reputacional.
O nome deixa de remeter a um projeto político e passa a remeter permanentemente ao escândalo.
E, historicamente, isso costuma ser fatal para candidaturas que dependem fortemente do discurso moralista.
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