Por Fernando Garayo
A história de Dom Cláudio Hummes, Lula e dos metalúrgicos que encontraram nas igrejas do ABC o abrigo que a ditadura havia fechado nas ruas.

Havia um Brasil em que as praças tinham silêncio imposto, os sindicatos podiam ser fechados por decreto e uma assembleia de trabalhadores podia ser tratada como ameaça à segurança nacional.
Era o Brasil de 1980.
No coração industrial de São Paulo, porém, havia um lugar onde a voz dos trabalhadores ainda encontrava espaço para ecoar: as igrejas.
Havia um homem vestido de branco, com o hábito franciscano e uma coragem que não cabia nos limites de um palácio episcopal: Dom Cláudio Hummes, então bispo da Diocese de Santo André.
Foram ali, entre as fábricas, os apitos das greves, as assembleias proibidas e a repressão policial, que uma das mais importantes alianças da história recente brasileira começou a ganhar contornos definitivos: a aproximação entre o bispo e um jovem líder metalúrgico chamado Luiz Inácio Lula da Silva.
A história não é apenas sobre uma greve. É sobre quando a fé decidiu ficar do lado dos perseguidos.
É sobre quando uma igreja deixou de ser apenas templo para se transformar em abrigo.
É sobre quando alguns homens descobriram que diante da força das armas, ainda havia uma arma que o regime não conseguia apreender: a palavra.
O ABC que despertou o Brasil
No final dos anos 1970, o ABC Paulista era uma espécie de coração industrial do país, São Bernardo do Campo, Santo André, São Caetano do Sul e Diadema concentravam grandes fábricas e milhares de trabalhadores. Ali estavam instaladas algumas das maiores montadoras e indústrias brasileiras.
Mas, por trás das linhas de produção havia salários corroídos pela inflação, jornadas pesadas, condições difíceis de trabalho e uma insatisfação que crescia silenciosamente.
Em 12 de maio de 1978, trabalhadores da Saab-Scania, em São Bernardo do Campo, cruzaram os braços. Liderados, entre outros, pelo então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema, Luiz Inácio Lula da Silva, iniciava-se um ciclo de mobilizações que mudaria a história política brasileira.
Em 1979 as paralisações ganharam dimensão ainda maior, mas, seria em 1980 que o confronto atingiria seu ponto mais dramático.
Em 1º de abril daquele ano começou uma greve que duraria 43 dias, envolvendo centenas de milhares de trabalhadores e colocando o regime militar diante de uma das maiores demonstrações de organização popular desde o golpe de 1964.
A greve foi considerada ilegal pelo governo militar. O sindicato sofreu intervenção, lideranças foram perseguidas e presas, as assembleias públicas foram proibidas.
O Estádio da Vila Euclides, tradicional espaço das reuniões dos metalúrgicos, foi fechado. Quando o Estado fechou as ruas, os trabalhadores procuraram outro caminho. Encontraram as portas das igrejas.
A Igreja que não fechou as portas
Dom Cláudio Hummes havia chegado à Diocese de Santo André em 1975. Durante 21 anos, acompanharia de perto a transformação social do ABC. Mas, principalmente, acompanharia o nascimento de uma nova consciência política entre os trabalhadores.
Não era um bispo que simplesmente observava a história da janela de seu gabinete. Ele estava nas portas das fábricas, conversava com operários, acompanhava assembleias, intercedia junto às autoridades. Quando os sindicatos foram fechados pela repressão, abriu as igrejas.
A própria Diocese de Santo André registra que Dom Cláudio abriu as portas da Catedral de Nossa Senhora do Carmo para assembleias e se posicionou contra as demissões de trabalhadores envolvidos nas greves.
Em 1980, durante a grande greve de 43 dias, a Igreja permaneceu ao lado dos trabalhadores até o fim. O próprio Dom Cláudio registrou posteriormente aquele período como um dos momentos decisivos de sua trajetória.
Era uma decisão de enorme significado. Porque naquela época uma igreja não era apenas um edifício religioso. Era território. Era proteção.
Era, muitas vezes, o único lugar onde uma multidão de trabalhadores poderia permanecer reunida sem que imediatamente se transformasse em alvo da repressão.
“Subam nos bancos e falem alto”
Há uma cena que parece saída de um filme sobre a resistência brasileira. Mas aconteceu.
Na Catedral do Carmo, em Santo André, trabalhadores em greve foram acolhidos para uma assembleia.
A polícia apareceu.
Segundo o relato do padre Carlito Dall’Agnese, então responsável pela Catedral, o comandante determinou que não fosse entregue o microfone aos trabalhadores. O episódio é registrado pelo Diário do Grande ABC e também pelo jornal O São Paulo.
E então veio a resposta que atravessou décadas.
O microfone não poderia ser usado.
Mas os trabalhadores não seriam silenciados.
A orientação foi simples:
“Subam nos bancos e falem bem alto para todos ouvirem.”
É uma frase pequena. Mas contém uma página inteira da história da democracia brasileira.
Porque a repressão podia confiscar o microfone, fechar o sindicato, impedir uma assembleia na praça, cercar o estádio.
Mas não havia como prender todas as vozes.
Naquele instante, os bancos da igreja viraram palanque, as paredes viraram caixas acústicas.
E os trabalhadores descobriram que, quando uma autoridade determina que você não pode falar, às vezes a resistência começa simplesmente encontrando outra maneira de ser ouvido.
O bispo e o metalúrgico
Foi nesse ambiente que a amizade entre Dom Cláudio Hummes e Lula se aprofundou.
Não foi uma amizade convencional.
De um lado, um franciscano, bispo católico, formado numa tradição religiosa marcada pela defesa dos pobres.
Do outro, um operário metalúrgico que se transformaria em uma das maiores lideranças sindical da história brasileira.
Eles vinham de mundos diferentes. Mas encontraram uma preocupação comum: o ser humano que trabalhava, sofria e não tinha voz.
Dom Cláudio aproximou-se dos metalúrgicos e passou a acompanhar pessoalmente as negociações, assembleias e manifestações. O padre Carlito Dall’Agnese chegou a conduzir o bispo em seu carro até portas de fábricas e assembleias para que ele pudesse auxiliar os trabalhadores.
A relação ultrapassou a política.
Durante a repressão, Dom Cláudio chegou a abrigar Lula, então procurado pela polícia, dentro da igreja. Também utilizou as pastorais para ajudar na arrecadação de alimentos e roupas destinados às famílias dos grevistas.
Não era apenas uma solidariedade de discurso. Era uma solidariedade que colocava o próprio corpo e a própria instituição em risco.
Quando o sindicato foi fechado, a Igreja virou sindicato.
A força simbólica daquele período talvez esteja justamente nisso. O regime militar tinha instrumentos para controlar instituições.
Mas encontrou dificuldade para controlar a fé quando parte da Igreja decidiu que não poderia permanecer indiferente diante da injustiça.
Em 1980, Dom Cláudio determinou que igrejas e salões paroquiais fossem colocados à disposição dos trabalhadores caso os sindicatos fossem novamente fechados. Documentos da época registram a decisão da Diocese de permanecer ao lado dos metalúrgicos até o fim.
A Igreja, portanto, não substituiu o sindicato.
Mas ofereceu aquilo que o sindicato havia perdido naquele momento: um teto para a organização coletiva.
E isso fez uma diferença extraordinária. Porque a democracia começa muito antes de uma eleição.
Começa quando pessoas comuns podem se reunir, quando podem falar, quando podem discordar, quando podem reivindicar, quando podem organizar-se sem medo de que alguém bata à porta para prendê-las.
A greve que ajudou a empurrar o Brasil para a democracia
As greves do ABC não foram um fenômeno isolado. Elas se transformaram em um dos motores da abertura política brasileira.
A própria Memória Globo classifica as greves do ABC como um marco importante do processo de redemocratização do país.
Daquele movimento surgiriam novas lideranças, novas organizações e uma nova cultura política.
O Partido dos Trabalhadores seria fundado em 1980.
Anos depois, viria a Central Única dos Trabalhadores.
E aquele operário que aprendera a enfrentar patrões, ministros, policiais e generais acabaria chegando ao Palácio do Planalto.
Mas antes de chegar à Presidência, Lula precisou conhecer a porta de uma igreja.
E atrás daquela porta estava Dom Cláudio.
Um encontro com João Paulo II
A amizade entre os dois homens teve momentos que parecem improváveis quando vistos à distância.
Em 1981, Dom Cláudio Hummes ajudou a proporcionar um encontro entre Lula e o então Papa João Paulo II, durante a visita do pontífice ao Brasil.
Lula e sua esposa, Marisa, aguardaram durante horas, sob chuva, para conversar com o Papa. O encontro foi articulado pelo bispo de Santo André.
É uma imagem poderosa.
O líder operário perseguido pela ditadura encontrando-se com o chefe da Igreja Católica.
E ao lado dele estava justamente o bispo que havia decidido que as portas da Igreja não seriam fechadas aos trabalhadores.
“Não se esqueça dos pobres”
Trinta e três anos depois da grande greve de 1980, a história daria uma volta extraordinária.
Era março de 2013, o mundo aguardava a primeira aparição do novo Papa.
Na varanda da Basílica de São Pedro apareceu um argentino chamado Jorge Mario Bergoglio.
Seu nome seria Francisco.
Ao seu lado estava um velho amigo brasileiro: Dom Cláudio Hummes.
Durante o conclave, Hummes estava sentado próximo a Bergoglio. Depois da eleição, aproximou-se dele.
Abraçou-o.
E disse:
“Não se esqueça dos pobres.”
Foi o próprio Papa Francisco quem contou essa história aos jornalistas dias depois da eleição. Segundo Francisco, a frase de Dom Cláudio ajudou a inspirar a escolha do nome papal.
Francisco. O nome do santo que abraçou a pobreza.
O nome escolhido depois de um conselho vindo de um brasileiro que havia passado boa parte de sua vida caminhando ao lado dos pobres.
Não era coincidência. Era uma história que começara muitos anos antes, nas ruas do ABC.
Do ABC para Roma
Dom Cláudio Hummes passou por Fortaleza e São Paulo, tornou-se cardeal e ocupou posições de enorme importância na Igreja Católica. Mas nunca abandonou a marca do ABC.
A própria CNBB registra que sua experiência em Santo André, junto aos trabalhadores e aos pobres, foi fundamental para sua trajetória posterior. A instituição destaca também sua atuação na defesa dos trabalhadores durante a ditadura e sua disposição de abrir igrejas para reuniões de sindicalistas.
O homem que ajudara a proteger trabalhadores brasileiros acabou aconselhando um Papa recém-eleito a não esquecer justamente daqueles que vivem nas margens. É como se a história tivesse fechado um círculo.
A amizade que sobreviveu às diferenças
Dom Cláudio era religioso. Lula era sindicalista.
Um acreditava na força transformadora do Evangelho. O outro acreditava na organização dos trabalhadores.
Mas ambos entenderam uma coisa essencial: a dignidade humana não deveria depender da posição social de ninguém.
A amizade permaneceu ao longo das décadas, apesar das diferenças políticas e ideológicas que naturalmente existiam entre os dois.
O próprio Dom Cláudio dizia que sua ação junto aos trabalhadores se baseava no Evangelho e não tinha a luta social como finalidade em si mesma. Para ele, a fé deveria se traduzir em compromisso concreto com o ser humano.
É justamente aí que está a grandeza daquela relação.
Não era preciso pensar igual. Era preciso reconhecer no outro um ser humano.
A democracia também nasceu dentro das igrejas
Há quem conte a história da redemocratização brasileira apenas pelos grandes nomes da política, pelas campanhas eleitorais, pelos discursos no Congresso ou pelas negociações em Brasília.
Mas, a democracia também nasceu em lugares muito mais simples.
Nas fábricas, nos bairros operários, nos sindicatos, nas pastorais, nas comunidades.
Nas igrejas que abriram suas portas quando as instituições do Estado estavam fechadas para os trabalhadores.
O ABC foi um desses lugares.
Ali, homens e mulheres aprenderam a fazer política não porque tivessem autorização para fazê-la, mas porque descobriram que nenhum governo consegue controlar eternamente a vontade de uma sociedade.
As greves de 1978, 1979 e 1980 foram decisivas para essa transformação. A de 1980, particularmente, colocou o regime diante de uma mobilização de massa de proporções inéditas desde o início da ditadura.
O homem que não entregou o microfone
Dom Cláudio Hummes morreu em 4 de julho de 2022. Morreu longe das manchetes que cercaram sua juventude episcopal.
Mas deixou uma história que continua sendo contada.
A história de um bispo que não acreditava que a Igreja deveria existir apenas para aqueles que estavam dentro dela.
A história de um religioso que entendeu que, em determinados momentos, abrir uma porta podia ser um ato político de enorme significado.
E talvez sua imagem mais poderosa permaneça aquela da Catedral do Carmo.
A polícia havia chegado, o microfone estava proibido, os trabalhadores não poderiam falar.
Então veio a solução:
Subam nos bancos.
E falem alto.
Muito alto.
Para que todos possam ouvir.
Quando o silêncio foi derrotado
Quarenta e seis anos depois daquela greve histórica, o Brasil é outro país.
A democracia voltou, presidentes são eleitos pelo voto, sindicatos podem funcionar, pessoas podem se reunir, as praças voltaram a pertencer ao povo.
Mas a memória daquele período continua necessária porque a democracia não é uma obra concluída.
Ela precisa ser defendida todos os dias.
Em 1980, os trabalhadores do ABC descobriram que uma porta aberta podia significar liberdade.
Dom Cláudio Hummes descobriu que um bispo também podia ser ponte entre os perseguidos e o mundo.
Lula descobriu, junto com milhares de metalúrgicos, que uma classe trabalhadora organizada poderia transformar a história política de um país.
Décadas depois, aquele mesmo Dom Cláudio estaria em Roma, ao lado de um Papa recém-eleito, repetindo a mesma mensagem que aprendera nas periferias industriais de São Paulo: não esquecer os pobres.
Essa é a maior herança daquela amizade.
A política passa, governos passam, cargos passam, greves terminam, homens morrem.
Mas permanecem as portas que alguém teve coragem de abrir.
Quando uma porta se abre para quem está sendo perseguido, às vezes não é apenas uma igreja que se abre.
É a própria história.
Fontes consultadas
- Diocese de Santo André — trajetória de Dom Cláudio Hummes e sua atuação junto aos trabalhadores.
- CNBB — biografia e atuação de Dom Cláudio Hummes durante as greves e a redemocratização.
- Diário do Grande ABC — memória das greves e depoimentos sobre a abertura das igrejas aos trabalhadores.
- Jornal O São Paulo — atuação de Dom Cláudio nas greves de 1979 e 1980.
- Memória Globo — cronologia das greves do ABC e seu papel na redemocratização.
- Senado Federal — registro histórico da relação entre Dom Cláudio, Lula e os trabalhadores do ABC.
- CNBB — relato de Papa Francisco sobre a frase “não se esqueça dos pobres”.
- Revista Eclesiástica Brasileira — artigo de 1980, assinado por Cláudio Hummes e Frei Betto, intitulado A Igreja e a greve do ABC.
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