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Quando o projeto de poder fala mais alto que a soberania

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Fernando Garayo- Jornalista- Cientista Político.

O encontro de Flávio Bolsonaro com Donald Trump para defender que o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho sejam classificados como organizações terroristas pelos Estados Unidos ultrapassa o campo simbólico da política ideológica. Trata-se de um movimento com potenciais consequências diplomáticas, econômicas e geopolíticas profundas para o Brasil.

A princípio, o discurso parece sedutor: endurecer o combate ao crime organizado, aproximar o Brasil da agenda internacional de segurança dos Estados Unidos e transmitir uma imagem de rigor contra o narcotráfico. Mas o problema começa justamente na palavra “terrorismo”. Quando uma potência econômica como os EUA classifica grupos de um país aliado como entidades terroristas, isso altera completamente a percepção internacional daquele território.

O Brasil deixaria de ser visto apenas como um país com problemas graves de segurança pública — algo infelizmente comum na América Latina — para entrar numa categoria muito mais sensível no imaginário internacional: a de país associado ao terrorismo transnacional.

Isso gera impactos imediatos.

Investidores estrangeiros, fundos internacionais e grandes conglomerados financeiros trabalham com análise de risco político. Quando o termo “terrorismo” entra oficialmente em relatórios internacionais ligados a um país, o capital reage. O dinheiro é covarde: foge da instabilidade. O custo de financiamento sobe, o dólar tende a sofrer pressão, seguros internacionais ficam mais caros e empresas multinacionais passam a rever projetos de expansão.

O Brasil já sofre historicamente com o chamado “custo de insegurança”. Mas existe uma diferença brutal entre violência urbana e terrorismo reconhecido internacionalmente. O primeiro é visto como problema interno; o segundo é interpretado como ameaça global.

Além disso, há consequências diplomáticas delicadas. O Brasil sempre buscou uma posição de autonomia relativa na política internacional, evitando alinhamentos automáticos com Washington. Ao recorrer diretamente a Trump figura profundamente polarizadora no cenário mundial — Flávio Bolsonaro reforça a imagem de uma ala da direita brasileira que prefere internacionalizar disputas domésticas e subordinar temas de soberania nacional ao jogo ideológico norte-americano.

Há também um risco jurídico e financeiro enorme. Quando os EUA classificam organizações como terroristas, eles acionam mecanismos de sanções internacionais. Isso pode levar bancos estrangeiros a ampliar controles sobre transações vindas do Brasil, dificultando operações financeiras legítimas. Empresas brasileiras podem enfrentar maior escrutínio internacional simplesmente por operar em regiões onde há presença dessas facções.

O efeito colateral pode atingir desde exportadores até fintechs e bancos nacionais.

Outro ponto sensível: a narrativa de terrorismo frequentemente serve de justificativa para ampliação de vigilância, endurecimento penal e flexibilização de garantias civis. Historicamente, após o 11 de Setembro, os EUA expandiram enormemente mecanismos de monitoramento estatal em nome da “guerra ao terror”. Importar essa lógica para o Brasil pode abrir precedentes perigosos para abusos institucionais.

E existe uma questão estratégica central: PCC e Comando Vermelho são organizações criminosas violentas, mas especialistas em segurança frequentemente diferenciam crime organizado de terrorismo. O terrorismo possui motivação político-ideológico explícita; já facções brasileiras operam prioritariamente pela lógica econômica do tráfico, armas e controle territorial. Misturar os conceitos pode gerar mais confusão jurídica do que eficiência prática.

No plano político interno, o gesto também pode ser interpretado como tentativa de reforçar vínculos ideológicos entre o bolsonarismo e o trumpismo. A aproximação não é apenas diplomática; é narrativa. Ambos exploram a retórica do medo, da guerra permanente contra inimigos internos e do endurecimento como linguagem eleitoral.

Mas o paradoxo é evidente: ao tentar vender a imagem de um Brasil “duro contra o crime”, o bolsonarismo corre o risco de fortalecer internacionalmente a imagem de um Brasil dominado por organizações terroristas. E isso pode produzir exatamente o contrário do que promete: menos confiança externa, menos investimento e mais isolamento.

No fundo, há uma pergunta que paira sobre esse episódio: até que ponto é legítimo buscar apoio estrangeiro para redefinir internacionalmente a imagem criminal do próprio país?

Porque uma vez que o selo de “terrorismo” entra no mapa geopolítico de uma nação, ele raramente sai sem deixar cicatrizes econômicas, diplomáticas e institucionais profundas.

 

 

 

 

 

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