Por Fernando Garayo-Jornalista e Cientista Político

No dia em que o Brasil relembra um dos crimes mais emblemáticos da ditadura militar, os brasileiros voltam às urnas diante de uma escolha que coloca no centro do debate o futuro da democracia e da soberania nacional.
O dia 25 de outubro carrega uma das páginas mais dolorosas da história brasileira, mas também uma das mais importantes para a resistência democrática. Foi nessa data, em 1975, que o jornalista Vladimir Herzog, conhecido como Vlado, foi morto nas dependências do DOI-CODI, em São Paulo, um dos principais centros de repressão política da ditadura militar.
Cinquenta e um anos depois, sua história continua sendo um alerta contra o autoritarismo, a perseguição política e as tentativas de silenciar a imprensa e a sociedade. A data passou a ser lembrada por instituições e movimentos democráticos como o Dia da Democracia e da Defesa da Liberdade. A escolha está diretamente ligada à morte de Herzog e ao impacto que seu assassinato provocou na luta pela redemocratização do Brasil.
A prisão, a tortura e a mentira da ditadura.
Vladimir Herzog era jornalista, professor da Universidade de São Paulo (USP) e diretor de jornalismo da TV Cultura. Em um período marcado pela censura, pela perseguição a opositores e pela violência de agentes do Estado, seu trabalho e suas supostas ligações com o Partido Comunista Brasileiro passaram a despertar a atenção dos órgãos de repressão.
Em 25 de outubro de 1975, Herzog compareceu voluntariamente ao DOI-CODI para prestar esclarecimentos. Não voltou para casa.
O jornalista foi torturado e morreu sob custódia dos agentes da ditadura. Para esconder o crime, as autoridades divulgaram a versão de que ele teria cometido suicídio dentro da cela. Uma fotografia de seu corpo foi utilizada para sustentar a narrativa oficial, que nunca convenceu boa parte da sociedade.
A farsa tornou-se um dos símbolos mais conhecidos da brutalidade do regime militar. Anos depois, a Justiça Federal reconheceu a responsabilidade do Estado por sua prisão ilegal, tortura e morte. Em 2013, sua certidão de óbito foi retificada para registrar que a morte decorreu de lesões e maus-tratos sofridos durante o interrogatório.
A história de Herzog demonstra até onde pode chegar um Estado autoritário quando a violência é utilizada para perseguir adversários e a mentira oficial tenta substituir a verdade.
A Catedral da Sé e a coragem de milhares de brasileiros
A morte de Herzog provocou indignação entre jornalistas, estudantes, artistas, intelectuais, religiosos e trabalhadores. Em um país submetido à censura e ao medo, sua morte rompeu o silêncio e fortaleceu a resistência democrática.
No dia 31 de outubro de 1975, milhares de pessoas se reuniram na Catedral da Sé, em São Paulo, para um ato ecumênico que entrou para a história. Mais de 8 mil pessoas participaram da cerimônia, celebrada pelo cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, pelo rabino Henry Sobel e pelo reverendo James Wright.
A presença conjunta de representantes das tradições católica, judaica e protestante deu à cerimônia um significado extraordinário. A religião, naquele momento, não foi instrumento de dominação política, mas espaço de solidariedade, coragem e defesa da dignidade humana.
Não era necessário empunhar armas para desafiar a ditadura. Bastava estar presente, prestar homenagem a um homem assassinado pelo Estado e demonstrar que o medo não havia destruído a consciência de um povo.
A missa ecumênica transformou o luto em manifestação pública de resistência. O regime podia controlar jornais, perseguir cidadãos e tentar esconder seus crimes, mas não conseguia apagar completamente a indignação da sociedade.
O assassinato de Herzog e a mobilização que se seguiu tornaram-se marcos da luta pelos direitos humanos e pela redemocratização brasileira.
25 de outubro de 2026: a democracia volta às urnas
A história reserva coincidências que parecem carregar um significado maior do que o próprio calendário. Neste domingo, 25 de outubro de 2026, o Brasil comemora o Dia da Democracia justamente na data em que milhões de brasileiros voltarão às urnas para escolher o próximo presidente da República. A disputa será entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro. É impossível ignorar o simbolismo desse encontro entre passado e presente.
Em 1975, a ditadura tentou silenciar Vladimir Herzog, jornalista que representava a liberdade de expressão e o compromisso com a verdade. Cinquenta e um anos depois, o país tem diante de si mais uma oportunidade de reafirmar o valor do voto, da Constituição, da liberdade de imprensa e do respeito às instituições democráticas.
O debate eleitoral de 2026 envolve projetos distintos para o Brasil, incluindo questões relacionadas aos direitos sociais, à economia, à política ambiental, às relações internacionais e à soberania nacional. Também traz à memória os acontecimentos que marcaram a história política recente, entre eles a tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022, pela qual Jair Bolsonaro foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal.
Para os críticos do bolsonarismo, a candidatura de Flávio Bolsonaro representa a continuidade de um projeto político associado ao ex-presidente. Seus defensores, por sua vez, apresentam outra visão para o país. Cabe aos eleitores avaliar as propostas, os antecedentes políticos e os compromissos de cada candidatura com a democracia.
Mas há um princípio que não deveria estar sujeito a disputas partidárias: nenhuma eleição justifica o enfraquecimento das instituições, a perseguição de adversários ou o desrespeito à vontade popular.
A democracia não se resume ao direito de votar. Ela exige que o resultado das urnas seja respeitado, que a imprensa possa investigar o poder, que a oposição tenha liberdade para se manifestar e que nenhum governante se coloque acima da Constituição.
É por isso que a memória de Vladimir Herzog continua tão necessária.
O voto como resposta ao autoritarismo
A morte de Herzog ensinou ao Brasil que o autoritarismo não começa necessariamente com tanques nas ruas. Ele também se alimenta da intolerância, da desinformação, da perseguição aos críticos e da tentativa de transformar divergências políticas em inimigos a serem eliminados.
A defesa da democracia exige vigilância permanente. Não basta recordar os crimes da ditadura em cerimônias e discursos. É preciso transformar essa memória em compromisso cotidiano com a liberdade, a justiça social, os direitos humanos e a soberania do povo brasileiro.
Neste 25 de outubro, cada eleitor terá a oportunidade de exercer sua cidadania e participar de uma decisão que marcará os próximos anos do país.
O voto é individual, livre e secreto. Cada cidadão deve decidir de acordo com sua consciência, examinando as propostas e os compromissos dos candidatos. Mas, qualquer que seja o resultado, a democracia brasileira precisará continuar sendo protegida por todos.
Vladimir Herzog entrou vivo nos porões da ditadura e nunca mais voltou para casa. Sua morte não pode ser reduzida a uma página dos livros de história. Ela precisa permanecer como um alerta contra qualquer tentativa de silenciar o povo brasileiro.
Neste domingo, a coincidência histórica entre a data que simboliza a luta democrática e o segundo turno presidencial oferece ao país uma oportunidade de refletir sobre o significado de sua escolha.
Que o 25 de outubro seja lembrado não apenas pela tragédia de 1975, mas também pela capacidade do povo brasileiro de decidir seu futuro sem medo, sem violência e sem abrir mão de suas liberdades.
A melhor homenagem que podemos prestar a Vladimir Herzog e a todos aqueles que lutaram contra a ditadura é manter viva a democracia pela qual tantos brasileiros sofreram e morreram.
A democracia não é uma concessão dos governantes. É um direito do povo. E a soberania nacional não pertence a uma família, a um partido ou a um grupo econômico: pertence aos brasileiros.
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