Reportagem de Fernando Garayo

Carta assinada por 35 bispos critica candidatura de Flávio Bolsonaro e defende democracia, soberania nacional e compromisso cristão com os mais pobres
Uma carta aberta divulgada nesta quinta-feira (22) por um grupo de 35 bispos católicos brasileiros colocou a democracia, a soberania nacional e o compromisso social do cristianismo no centro do debate eleitoral. O documento critica duramente a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República e convoca os católicos a comparecerem às urnas no próximo domingo (25), no segundo turno das eleições, em defesa da democracia, dos valores humanitários, dos pobres e dos ensinamentos da Igreja.
Segundo reportagem da coluna de Mônica Bergamo, publicada pela Folha de S.Paulo, os bispos afirmam que a candidatura de Flávio representa uma ameaça à democracia, à soberania nacional e à prática do bem comum. Embora o documento não cite nominalmente o candidato, apresenta críticas a posições que os signatários associam a ele, como o alinhamento aos Estados Unidos, a ampliação do acesso às armas e a postura diante das mudanças climáticas.
Fé, democracia e soberania nacional
Os bispos sustentam que a escolha presidencial não pode ser reduzida a uma disputa entre candidatos ou a uma simples preferência partidária. Para os signatários, está em jogo a orientação política do país, o respeito às instituições democráticas e a defesa dos direitos sociais.
A convocação para que os católicos votem em defesa da democracia e da soberania tem como fundamento uma interpretação social da fé cristã: a religião não deve servir apenas como instrumento de devoção individual, mas também inspirar a defesa da dignidade humana, da justiça e da solidariedade.
O manifesto também faz referência à história brasileira, incluindo a ditadura militar e as homenagens feitas por integrantes da família Bolsonaro a agentes ligados à repressão política. Os autores avaliam que determinadas posições do campo bolsonarista levantam preocupações sobre o respeito à ordem constitucional.
São avaliações políticas dos signatários, que devem ser lidas no contexto do debate eleitoral. O ponto central da carta é o alerta de que a preservação da democracia exige atenção à trajetória dos candidatos, às suas declarações públicas e aos compromissos que assumem perante a sociedade.
A soberania não é apenas uma palavra
A discussão sobre soberania nacional envolve a capacidade de o Brasil definir seus próprios rumos, proteger seus interesses estratégicos e estabelecer relações internacionais sem abrir mão de sua autonomia.
Na avaliação expressa pelos bispos, a perspectiva de subordinação dos interesses brasileiros a uma potência estrangeira representa uma preocupação política relevante. O tema ganha importância num cenário em que política externa, recursos naturais, meio ambiente e desenvolvimento econômico ocupam espaço crescente no debate público.
A soberania, entretanto, não se resume às relações diplomáticas. Ela também se relaciona à capacidade de o povo escolher livremente seus representantes, participar das decisões nacionais e exigir que os governantes respeitem a Constituição.
É nessa dimensão que a carta aproxima soberania e democracia: um país não é plenamente soberano quando seus cidadãos têm seus direitos políticos ameaçados ou quando a vontade popular deixa de ser respeitada.
O compromisso cristão com os pobres
Outro aspecto importante do documento é a defesa dos valores humanitários e da atenção aos mais vulneráveis.
A preocupação social está presente na tradição da Igreja Católica, especialmente na Doutrina Social da Igreja, que coloca a dignidade da pessoa humana, o bem comum, a solidariedade e a participação social entre seus princípios fundamentais.
Sob essa perspectiva, o debate eleitoral não deveria se limitar a temas morais ou à identidade religiosa dos candidatos. Também precisa considerar as consequências das políticas públicas sobre os trabalhadores, os pobres, as famílias, o meio ambiente e as futuras gerações.
O cristianismo, conforme essa tradição, não pode ser reduzido a uma bandeira partidária. A fé deve ser acompanhada de responsabilidade social, compromisso com a justiça e respeito à dignidade de todas as pessoas.
A Igreja e o uso político da religião
A carta surge em um período de forte disputa em torno da relação entre religião e política. Nos últimos meses, episódios envolvendo Flávio Bolsonaro, a CNBB e Nossa Senhora Aparecida colocaram a Igreja Católica no centro de controvérsias eleitorais.
O candidato havia acusado integrantes da CNBB de contribuir para a disseminação de informações falsas relacionadas a um suposto plano para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. A entidade negou ter autorizado a divulgação de notícias falsas e reafirmou seu papel pastoral.
A controvérsia evidencia como símbolos religiosos podem ser mobilizados na disputa política e como acusações envolvendo a fé podem influenciar o debate público.
É necessário, porém, separar os posicionamentos documentados dos bispos das acusações e interpretações feitas pelas campanhas. O respeito à verdade exige que afirmações sobre candidatos e instituições sejam sustentadas por evidências verificáveis.
A democracia também exige liberdade de consciência
A convocação dos bispos ocorre num contexto em que o voto religioso se tornou um dos temas centrais da eleição presidencial. A manifestação procura influenciar o debate a partir de princípios cristãos, mas a liberdade religiosa também pressupõe que cada eleitor possa formar sua própria consciência.
O voto é livre e secreto. Nenhum sacerdote, pastor, liderança política ou dirigente religioso deve transformar a fé em instrumento de intimidação ou constrangimento eleitoral.
A defesa da democracia significa, igualmente, reconhecer a legitimidade da pluralidade de opiniões e assegurar que os cidadãos possam escolher seus representantes sem ameaças ou pressões.
A mensagem dos bispos abre, assim, uma discussão que ultrapassa os limites das comunidades católicas: qual é o papel da religião numa sociedade democrática e até que ponto os valores religiosos podem contribuir para o debate público sem se converterem em instrumentos de dominação política?
O Brasil diante de uma escolha decisiva
A carta dos 35 bispos apresenta uma avaliação contundente da candidatura de Flávio Bolsonaro e conclama os católicos a votarem em defesa da democracia, da soberania nacional e dos valores humanitários.
Já a mensagem institucional da CNBB, divulgada em 21 de outubro, adota uma abordagem distinta: sem indicar candidatos ou partidos, pede que os eleitores considerem a trajetória dos concorrentes, seus compromissos democráticos e suas propostas para melhorar as condições de vida da população. O texto também defende o respeito aos resultados legítimos das urnas, a liberdade de expressão e a proteção dos direitos humanos.
As duas manifestações convergem na defesa da participação consciente e do compromisso com a democracia, embora tenham alcances e posicionamentos diferentes.
No próximo domingo, os brasileiros terão a responsabilidade de decidir quem governará o país. Para além das preferências partidárias, a eleição recoloca questões fundamentais: respeito à Constituição, preservação da soberania, proteção dos direitos sociais e compromisso com as instituições democráticas.
A fé pode participar desse debate, assim como outras convicções filosóficas e políticas. O que não pode ser colocado em segundo plano é o direito de cada cidadão decidir livremente, sem coerção, e a obrigação de qualquer governante eleito respeitar os limites constitucionais do poder.
Democracia não se resume ao ato de votar. Ela se constrói diariamente, com liberdade, participação popular, respeito às diferenças e responsabilidade de quem governa perante o povo brasileiro.
Fontes
- Folha de S.Paulo — coluna de Mônica Bergamo, 22 de outubro de 2026: carta aberta de bispos católicos sobre a candidatura de Flávio Bolsonaro.
- Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) — “Conselho Permanente reforça defesa da democracia e incentiva voto consciente no segundo turno das eleições”, 22 de outubro de 2026.
- Doutrina Social da Igreja Católica — princípios da dignidade humana, do bem comum, da solidariedade e da participação social.
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