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Democracia não é opcional

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Fernando Garayo- Jornalista- Ambientalista– Pós Graduado em Ciências Politícas

A recente declaração do vice-presidente Geraldo Alckmin — de que “quem defende ditadura não deveria ser candidato” — não é apenas uma frase de efeito em meio ao debate político. É, na verdade, um lembrete necessário em tempos de memória curta e tolerância perigosa com o autoritarismo. E, sim, é uma posição com a qual é difícil não concordar quando se olha para os fatos recentes da história brasileira.

A democracia não é um detalhe do sistema político; ela é o próprio alicerce que garante direitos, liberdades e a possibilidade de alternância de poder. Permitir que pessoas que defendem abertamente regimes autoritários disputem cargos públicos é aceitar, paradoxalmente, que o próprio sistema democrático seja usado para destruí-lo.

Durante os quatro anos do governo de Jair Bolsonaro, vimos uma sequência de episódios que colocaram à prova as instituições brasileiras. Não se trata de opinião ideológica, mas de registros públicos: ataques reiterados ao Supremo Tribunal Federal, questionamentos infundados ao sistema eleitoral e às urnas eletrônicas, além de discursos que flertavam com a ruptura institucional.

A escalada retórica não ficou apenas nas palavras. O país assistiu, atônito, aos desdobramentos que culminaram nos atos de 8 de janeiro de 2023, quando as sedes dos Três Poderes foram invadidas e depredadas em Brasília. Aquele episódio não surgiu do nada; foi o resultado de anos de deslegitimação das instituições e de incentivo, ainda que indireto, à desconfiança no processo democrático.

É importante lembrar que a defesa da ditadura não é uma abstração inocente. O Brasil já viveu sob um regime autoritário entre 1964 e 1985, período marcado por censura, perseguições políticas, tortura e supressão de direitos civis. Ignorar esse passado — ou, pior, relativizá-lo — é abrir espaço para que ele se repita.

Ao afirmar que defensores da ditadura não deveriam ser candidatos, Alckmin toca em um ponto sensível: a democracia deve se proteger. Isso não significa censura ou perseguição política, mas sim estabelecer limites claros sobre o que é aceitável dentro do jogo democrático. Defender o fim da democracia não pode ser considerado apenas mais uma opinião entre tantas.

Os críticos da fala costumam recorrer ao argumento da liberdade de expressão. Mas liberdade de expressão não é salvo-conduto para atacar o próprio regime que a garante. Em qualquer sociedade minimamente comprometida com o Estado de Direito, há linhas que não podem ser cruzadas sem consequências.

O Brasil ainda está consolidando sua democracia, e isso exige vigilância constante. O que vimos nos últimos anos foi um teste de estresse institucional — e, apesar de tudo, as instituições resistiram. Mas resistir não basta; é preciso aprender com os erros e fortalecer os mecanismos de proteção democrática.

A fala de Alckmin, nesse contexto, não é radical — é preventiva. Ela expressa uma compreensão básica: não há espaço para neutralidade quando o assunto é democracia. Ou se está ao lado dela, ou se está contra.

E, diante do histórico recente, não é apenas uma questão de opinião. É uma questão de responsabilidade com o futuro do país.

 

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