
Se há uma coisa que move a política paulista mais rápido do que carro em pista expressa é pedágio — e, nesse quesito, Tarcísio de Freitas construiu uma marca tão sólida que já poderia estampar placa de cobrança automática.
Agora imagine a cena: o governo federal, sob Luiz Inácio Lula da Silva, decide anular milhões de multas ligadas ao sistema free flow — aquele modelo moderno, sem cancelas, mas com potencial quase artístico de surpreender motoristas desavisados com notificações posteriores. De uma canetada, o que era receita vira fumaça. E, junto com ela, vai embora uma boa parcela da pedagogia do susto que vinha sendo aplicada nas estradas.
E Tarcísio? Bem, aí começa o exercício de imaginação.
De um lado, o gestor técnico, ex-ministro da Infraestrutura, provavelmente encara a decisão como um atentado à “segurança jurídica” e ao “equilíbrio dos contratos” — expressões que, traduzidas do economês, significam: alguém mexeu no fluxo de caixa. Do outro, o político, que precisa olhar para o retrovisor eleitoral, talvez esteja percebendo que defender multa de pedágio nunca foi exatamente uma bandeira popular. Difícil fazer discurso inflamado em defesa do boleto.
Recorrer à Justiça? É uma possibilidade quase irresistível. Afinal, judicializar é o esporte preferido quando Brasília invade o quintal dos estados. Mas há um pequeno detalhe: entrar nessa briga pode colocar o governador na posição incômoda de quem luta… pela manutenção de multas. Não exatamente o tipo de causa que arrasta multidões para a Avenida Paulista em um domingo ensolarado.
Aceitar a decisão? Também não é simples. Soaria como uma rendição política, quase um aceno de que o modelo foi mal implementado ou, no mínimo, mal comunicado. E isso, para alguém que construiu a imagem de gestor eficiente, pode ser indigesto.
No fim das contas, Tarcísio está diante de um daqueles dilemas clássicos da política: escolher entre o tecnicamente defensável e o politicamente palatável. Se recorrer, corre o risco de parecer desconectado do humor popular. Se aceitar, pode parecer fraco diante de Brasília.
Talvez a saída seja o caminho do meio — aquele em que se critica duramente promete ajustes, fala em “aperfeiçoamento do sistema” e deixa a poeira baixar enquanto o eleitor decide se comemora o alívio no bolso ou apenas segue tentando entender como funcionava o free flow em primeiro lugar.
Porque, no Brasil, mais do que pagar pedágio, o verdadeiro desafio sempre foi entender quem está cobrando — e por quê.
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