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Editorial: Quando o dinheiro do político vai para fora do Brasil?

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Editorial: NJNoticias

A reportagem publicada pelo UOL nesta quarta-feira revela um dado que deveria provocar muito mais do que curiosidade no eleitor: candidatos das eleições de 2026 declararam à Justiça Eleitoral pelo menos R$ 111,7 milhões em patrimônio mantido no exterior, entre contas bancárias, aplicações financeiras, imóveis e participações em empresas. Segundo o levantamento, dez candidatos concentram 74,5% desse valor, e o partido Novo aparece na liderança, com R$ 42,7 milhões declarados fora do país.
É importante deixar claro: ter patrimônio no exterior não é por si só, ilegal. A própria reportagem ressalta isso. O problema que merece ser discutido é outro: qual é a relação entre o discurso político de defesa do Brasil e a decisão pessoal de manter milhões de reais fora dele?
Essa é uma pergunta legítima que o eleitor tem o direito de fazer.
Um político que pede votos dizendo que vai defender a economia brasileira, estimular investimentos, fortalecer nossas empresas, gerar empregos e proteger os interesses nacionais precisam estar preparados para explicar suas próprias escolhas patrimoniais.
Não se trata de dizer que todo dinheiro mantido no exterior representa evasão de divisas, sonegação ou qualquer irregularidade. Não representa. São coisas diferentes. Mas também não podemos tratar como assunto irrelevante o fato de candidatos a cargos públicos possuírem dezenas de milhões de reais fora do país.
Porque existe aí uma questão política e, sobretudo, ética.
Se o Brasil é tão ruim para investir, por que alguém quer governá-lo?
Se o país é apresentado como um lugar de insegurança econômica, impostos excessivos, instabilidade e falta de oportunidades, por que alguém que pretende assumir a Presidência da República, um governo estadual, uma cadeira no Senado ou na Câmara mantém parte expressiva de seu patrimônio em outros países?
E há uma contradição ainda maior quando determinados políticos defendem um discurso nacionalista inflamado, atacam investimentos estrangeiros ou dizem que é preciso proteger o patrimônio nacional, mas, ao mesmo tempo, mantêm parcela significativa de seus próprios recursos no exterior.
O cidadão comum não tem essa alternativa.
O trabalhador recebe em reais, paga suas contas em reais, paga impostos em reais e constrói sua vida dentro do Brasil. O pequeno empresário também está sujeito às oscilações da economia brasileira. O aposentado depende das condições econômicas do país. E milhões de brasileiros não têm sequer dinheiro suficiente para formar uma reserva de emergência.
Por isso, quando um candidato apresenta milhões no exterior, é perfeitamente legítimo perguntar: por quê?
É investimento? Diversificação patrimonial? Herança? Negócios internacionais? Proteção financeira? Imóveis? Participações empresariais?
Tudo isso pode ter explicação legal e econômica.
Mas o eleitor merece conhecer essas explicações.
A transparência não pode terminar na declaração de patrimônio entregue à Justiça Eleitoral. É preciso que o cidadão tenha condições de compreender o patrimônio daqueles que pretendem administrar bilhões de reais dos cofres públicos.

A reportagem do UOL também mostra que há limitações nas próprias declarações, inclusive porque nem sempre é possível identificar com precisão a localização dos bens. Isso reforça a necessidade de mecanismos de transparência cada vez mais eficientes.
E existe uma pergunta que vale para todos os partidos, da esquerda à direita:
Qual Brasil esses candidatos querem construir — aquele em que colocam seus investimentos ou aquele que pedem ao eleitor para defender?
Não estamos falando de confiscar patrimônio, impedir investimentos legítimos ou criminalizar quem possui dinheiro no exterior. Estamos falando de coerência entre o discurso público e as escolhas privadas.
Quem pretende administrar o dinheiro público precisa aceitar que sua própria relação com o dinheiro seja submetida ao escrutínio público.
A política exige transparência.
E patriotismo, quando utilizado como discurso eleitoral, não pode ser apenas uma bandeira tremulando no palanque.
Também precisa aparecer nas escolhas.
O eleitor brasileiro tem o direito de perguntar onde está o dinheiro daqueles que querem governar o Brasil. E os candidatos têm o dever de responder.

Njnoticias

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