Por Fernando Garayo

Hoje de manhã durante minha caminhada habitual de todos os dias, encontrei com um amigo de longa data. Conversando com sobre uma das perguntas mais antigas que perseguem a humanidade: o inferno existe?
Esse amigo me disse que não. Que o inferno é uma invenção humana. Criada para colocar medo, para a religião controlar as pessoas através da culpa. Eu compreendo o argumento desse amigo. Ainda mais nos tempos em que vivemos, onde lideres religiosos usam da “Teologia da Dominação”, para impor um custo aos fieis para alcançarem a salvação da alma depois da morte.
Durante séculos o ser humano descreveu o inferno com imagens de fogo, demônios, sofrimento e condenação. E muitas vezes a própria religião transformou o medo do inferno em instrumento de poder. Mas, enquanto meu amigo falava outra pergunta nasceu dentro de mim.
Se o inferno não existe, eu não sei se gostaria de acreditar no céu.
Ele provavelmente esperava uma defesa da religião. Mas não era exatamente isso.
Era uma inquietação sobre justiça.
Porque imaginei, por um instante, que eu morresse e atravessasse aquela última fronteira que separa o conhecido do desconhecido. Imaginei que chegasse ao céu e encontrasse ali Adolf Hitler.
O homem responsável por um regime que perseguiu e assassinou milhões de pessoas, entre elas seis milhões de judeus durante o Holocausto.
Imaginei encontrar homens da história brasileira associados à repressão e à tortura durante a ditadura militar, como Carlos Alberto Brilhante Ustra e os generais Emílio Garrastazu Médici e muitos outros assassinos da ditadura.
Que céu seria esse?
Que espécie de paraíso seria aquele em que a vítima e o carrasco finalmente se encontrassem lado a lado, como se suas histórias fossem moralmente equivalentes?
Não estou dizendo que conheço o destino espiritual de nenhum morto.
Não conheço, e talvez ninguém conheça.
A própria tradição cristã afirma que o julgamento definitivo pertence a Deus. O Catecismo da Igreja Católica sustenta a existência do inferno, mas o descreve fundamentalmente como uma separação definitiva de Deus; ao mesmo tempo, afirma que não cabe aos seres humanos determinar quais pessoas concretas estão condenadas.
É justamente aí que minha inquietação começa.
Porque talvez o inferno não seja, como tantas vezes imaginamos simplesmente um lugar cheio de fogo. Talvez o inferno seja a resposta moral ao mal.
Talvez seja a afirmação de que nem todo ato humano pode ser apagado pelo tempo.
Há coisas que a história não pode esquecer, há dores que não desaparecem porque o calendário avançou, há famílias que jamais recuperaram seus mortos, há crianças que nunca conheceram seus pais, há pessoas que carregaram no corpo e na alma as marcas da tortura, há vítimas que morreram sem receber justiça.
E se depois da morte não houver absolutamente nenhuma forma de justiça?
Então existe uma terrível possibilidade filosófica: que o assassino e sua vítima terminem exatamente no mesmo lugar moral.
E isso me incomoda.
Não porque eu tenha prazer na ideia de alguém sofrer eternamente. Muito pelo contrário. Eu não desejo o inferno nem mesmo para aqueles que fizeram o mal.
O que desejo é que exista uma justiça capaz de olhar para o mal sem fingir que ele nunca aconteceu, porque perdoar não pode significar apagar a vítima. Misericórdia não pode significar transformar o algoz em inocente. Redenção se existe, não pode ser uma borracha sobre a memória daqueles que sofreram.
Talvez seja esse o maior problema de nossa compreensão humana sobre o céu e o inferno.
Nós pensamos em lugares.
Talvez devêssemos pensar em verdade.
O céu talvez seja o lugar onde nenhuma mentira consegue sobreviver.
E o inferno talvez seja a impossibilidade de fugir eternamente daquilo que fomos.
Não sei.
Ninguém sabe.
E talvez seja justamente por não sabermos que devemos ter cuidado quando falamos sobre a eternidade.
Mas existe uma coisa que sabemos.
Hitler existiu.
O Holocausto aconteceu.
Milhões morreram.
E o horror não pode ser relativizado pela passagem do tempo.
Também sabemos que a Comissão Nacional da Verdade foi criada no Brasil para investigar graves violações de direitos humanos ocorridas entre 1964 a 1985, período da ditadura militar brasileira.
Portanto, quando penso no inferno, não penso apenas em fogo.
Penso nas vítimas.
Penso na justiça que muitas delas não encontraram em vida.
Penso na necessidade humana de acreditar que o universo não termina numa injustiça absoluta.
Talvez seja por isso que tantas civilizações criaram alguma ideia de julgamento depois da morte.
Porque o ser humano olha para o mundo e percebe uma coisa assustadora: os justos nem sempre vencem, e os perversos nem sempre pagam.
Alguns torturadores morreram em suas camas, alguns assassinos envelheceram cercados de conforto.
Alguns responsáveis por tragédias morreram sem ouvir da boca de suas vítimas a palavra que talvez mais desejassem: “por quê?”.
E então surge a pergunta que atravessa os séculos. Será que a morte encerra também a justiça?
Meu amigo acredita que o inferno é uma invenção humana. Talvez seja.
Mas existe outra possibilidade.
Talvez a ideia do inferno tenha surgido justamente porque o ser humano percebeu que existem crimes grandes demais para serem resolvidos apenas pelas leis dos homens.
Talvez o inferno seja a tentativa humana de dizer:
“O mal não terá a última palavra.”
E, para mim, essa frase é muito mais profunda do que qualquer descrição de fogo ou demônios.
Porque eu não preciso acreditar que o inferno seja uma caverna subterrânea.
Posso imaginar o inferno como uma dimensão moral.
Como o lugar, ou estado em que a criatura finalmente se encontra diante de toda a verdade de seus próprios atos.
Sem propaganda.
Sem poder.
Sem exército.
Sem discurso.
Sem advogado.
Sem possibilidade de reescrever a história.
Apenas a verdade.
E talvez seja isso que mais assusta.
Porque o homem pode enganar os outros durante toda uma vida, pode construir monumentos, escrever livros, controlar jornais, criar discursos para justificar seus crimes, chamar tortura de “necessidade”, chamar assassinato de “ordem”, chamar perseguição de “segurança”.
Mas talvez exista uma fronteira diante da qual todas essas palavras percam o significado.
A fronteira da verdade.
Por isso, quando meu amigo diz que o inferno não existe, eu não consigo simplesmente responder se ele está errado.
Talvez ele esteja certo.
Talvez o inferno não exista da maneira como nos ensinaram a imaginá-lo.
Mas continuo acreditando em uma coisa: o mal precisa encontrar algum lugar onde seja finalmente confrontado.
Porque se existe um céu onde habitam os justos, eu não quero um céu construído sobre o esquecimento das vítimas.
Quero um céu onde elas sejam lembradas.
Quero um céu onde a dignidade daqueles que sofreram seja maior que a memória dos seus algozes.
Quero um céu onde ninguém precise dividir a eternidade com o próprio carrasco como se nada tivesse acontecido.
E talvez seja por isso que a esperança de justiça depois da morte não seja apenas uma questão religiosa.
É também uma questão profundamente humana.
Porque no fundo talvez aquilo que chamamos de inferno seja a nossa maneira de dizer ao universo:
“Algumas coisas foram graves demais para simplesmente terminar.”
E talvez aquilo que chamamos de céu seja a nossa esperança de que no fim de todas as coisas, nenhuma lágrima terá sido esquecida.
Nenhuma vítima será invisível, nenhuma dor será apagada, nenhum Hitler da história poderá simplesmente sentar-se ao lado de suas vítimas no banquete da eternidade como se a vida tivesse sido apenas um jogo.
Se houver um Deus, eu espero que sua justiça seja maior que a minha.
E se houver um céu, espero que nele exista espaço para o perdão, mas, também para a memória.
Porque perdoar não é esquecer.
E talvez a verdadeira justiça seja justamente aquela que consegue fazer as duas coisas que nós, seres humanos, raramente conseguimos: julgar o mal sem se tornar mal e perdoar sem apagar a vítima.
Descubra mais sobre NJ Notícias
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.






