Por Fernando Garayo

Levantamento da Ascema Nacional cruzou dados do TSE, Ibama e ICMBio e revela concentração de candidatos autuados em partidos de direita e centro-direita.
Um levantamento realizado pela Associação Nacional dos Servidores da Carreira de Especialista em Meio Ambiente (Ascema Nacional) coloca um novo elemento no debate eleitoral de 2026: o histórico de autuações ambientais dos candidatos que disputam uma vaga no Executivo e no Legislativo.
Segundo o estudo, 240 dos 20.653 candidatos analisados nas eleições deste ano possuem pelo menos um auto de infração ambiental válido registrado em seu CPF.
Juntos, esses candidatos aparecem relacionados a 524 autos de infração, que somam R$ 213.516.574,62 em valores nominais registrados nos autos.
O levantamento corresponde a 1,16% do universo de candidatos analisados.
A pesquisa foi feita por meio do cruzamento dos CPFs dos candidatos registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com os bancos de dados de autuações do Ibama e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
Entre as legendas com maior número absoluto de candidatos autuados, o Partido Liberal (PL) aparece na primeira posição.
O levantamento encontrou:
Partido| Candidatos autuados| Autos de infração| Valor registrado
PL| 35| 64| R$ 16,31 milhões
MDB| 26| 66| R$ 8,22 milhões
Podemos (PODE)| 22| 60| R$ 11,93 milhões
Republicanos| 19| 41| R$ 11,08 milhões
PSDB| 18| 28| R$ 2,28 milhões
PSD| 16| 27| R$ 1,51 milhão
União Brasil| 14| 38| R$ 4,53 milhões
Novo| 14| 22| R$ 1,85 milhão
Progressistas (PP)| 12| 28| R$ 2,50 milhões
Democracia Cristã (DC)| 9| 30| R$ 54,02 milhões
Os números constam da tabela partidária do relatório da Ascema. Um detalhe chama ainda mais atenção. Embora o PL tenha o maior número de candidatos autuados, não é o partido que concentra o maior valor financeiro. Essa posição pertence ao Democracia Cristã (DC). São apenas 9 candidatos, mas as autuações associadas a eles chegam a aproximadamente R$ 54 milhões.
O valor é mais de três vezes superior ao registrado entre os 35 candidatos do PL. O caso demonstra uma característica importante do levantamento: quantidade de candidatos autuados e valor das multas são coisas diferentes.
Outro caso citado pela Ascema é o Mobiliza, partido identificado na pesquisa com apenas três candidatos autuados, mas com aproximadamente R$ 67,1 milhões em multas registradas. Ou seja, mesmo com poucos candidatos, a legenda concentra um volume financeiro muito elevado. Esse tipo de concentração ocorre porque uma parcela pequena dos candidatos responde por multas de valores excepcionalmente altos.
De acordo com o relatório, aproximadamente 5% dos 240 candidatos autuados concentram mais de 80% do valor total das multas.
Quem são esses partidos?
Partido Liberal (PL)
É uma das maiores forças da direita brasileira e abriga importantes lideranças do campo conservador. Nas eleições de 2026, é também o partido que aparecem com o maior número de candidatos autuados no levantamento, 35 candidatos – 64 autos- R$ 16,3 milhões.
Movimento Democrático Brasileiro (MDB)
Partido tradicional da política brasileira, com atuação em diferentes campos ideológicos e forte presença regional.
26 candidatos – 66 autos – R$ 8,2 milhões.
Podemos (PODE)
Legenda de centro-direita que também aparece entre as maiores bancadas de candidatos autuados.
22 candidatos- 60 autos – R$ 11,9 milhões.
Republicanos
Partido de centro-direita/conservador, com forte presença no Congresso e ligação política com diferentes setores religiosos e empresariais.
19 candidatos – 41 autos – R$ 11,1 milhões.
União Brasil
Uma das grandes legendas do centro-direita brasileiro.
14 candidatos – 38 autos – R$ 4,5 milhões.
Novo
Partido de orientação liberal, também aparece no levantamento.
14 candidatos – 22 autos – R$ 1,85 milhão.
Progressistas (PP)
Legenda tradicionalmente associada ao centro-direita e com forte presença entre representantes do agronegócio.
12 candidatos – 28 autos – R$ 2,5 milhões.
Democracia Cristã (DC)
É o caso que mais chama atenção quando se considera o valor das multas.
9 candidatos – 30 autos – R$ 54 milhões.
Deputados estaduais concentram R$ 129,7 milhões, outro dado importante do levantamento está relacionado aos cargos disputados.
Os candidatos a deputado estadual representam a maior parcela: 119 candidatos, 260 autos de infração e R$ 129,7 milhões em valores registrados.
Na sequência aparecem os candidatos a deputado federal: 83 candidatos, 178 autos e R$ 67,4 milhões.·.
Também foram encontrados:
12 candidatos ao Senado, com R$ 3,4 milhões;
9 primeiros suplentes, com R$ 10,9 milhões;
8 segundos suplentes, com R$ 607,8 mil;
4 candidatos a vice-governador, com R$ 56,5 mil;
2 candidatos a governador, com R$ 1,4 milhão.
Nenhum candidato à Presidência ou à Vice-Presidência apareceu no cruzamento com autuações válidas.
Goiás e Roraima concentram os maiores valores. Quando o levantamento é analisado por estado de candidatura, os números também chamam atenção.
Goiás aparece em primeiro lugar no valor total, com R$ 67,6 milhões. Em segundo lugar está Roraima, com R$ 55,6 milhões. Na quantidade de candidatos autuados, o Tocantins lidera, com 20 candidatos. O Pará, por sua vez, registra o maior número de autos: 59.
A Ascema observa que a concentração de casos no Norte e no Centro-Oeste ocorre em regiões marcadas pela expansão das fronteiras agrícola, mineral e madeireira.
É fundamental fazer uma ressalva. Ter um auto de infração ambiental não significa automaticamente que o candidato tenha cometido um crime, que tenha sido condenado ou que deva atualmente o valor integral da multa.
O próprio relatório da Ascema afirma que o auto é um registro administrativo de uma suposta infração e que cada processo pode estar em diferentes fases. O levantamento também não informa se a multa foi paga, contestada, reduzida, prescrita ou convertida.
Além disso, a existência de uma autuação não significa que o candidato esteja inelegível. A situação eleitoral depende das decisões das autoridades competentes.
Outro ponto importante: a pesquisa considera apenas autuações vinculadas ao CPF da pessoa física. Infrações eventualmente cometidas por empresas das quais o candidato seja sócio ou proprietário não entraram na conta.
Também ficaram de fora multas aplicadas por órgãos ambientais estaduais e municipais.
O alerta sobre conflito de interesses
É justamente aqui que o levantamento ganha dimensão política. Um candidato que já tenha sido autuado por órgãos ambientais pode se eleito, passar a ocupar um cargo com poder para votar leis, aprovar orçamento, fiscalizar o Executivo e discutir a estrutura dos próprios órgãos responsáveis pela fiscalização ambiental.
Isso não significa que o candidato necessariamente irá agir contra a fiscalização. Mas cria, segundo a Ascema, uma situação que merece atenção do eleitor e dos órgãos de controle. O relatório chama essa situação de “potencial conflito de interesses sistêmico”.
Na prática, deputados e senadores participam da definição das regras ambientais, do orçamento público e da estrutura administrativa dos órgãos federais.
Por isso, conhecer o histórico dos candidatos antes de votar pode ajudar o eleitor a avaliar não apenas aquilo que eles prometem durante a campanha, mas também sua relação anterior com a legislação ambiental.
Transparência antes do voto
O levantamento da Ascema não deve ser utilizado como uma sentença contra qualquer candidato. Deve ser encarado como uma ferramenta de transparência eleitoral. O eleitor tem o direito de saber se um candidato possui histórico de autuações ambientais, assim como tem o direito de conhecer seu patrimônio, suas propostas, sua atuação política, suas empresas e sua trajetória pública.
O relatório disponibiliza uma planilha com os 240 candidatos e os 524 autos identificados, permitindo a consulta por nome, CPF, estado, cargo, partido, número do auto, processo e tipo de infração.
O número que fica para a eleição de 2026
240 candidatos
524 autos de infração
R$ 213.516.574,62 em multas registradas
1,16% das candidaturas analisadas
Esses números não dizem em quem o eleitor deve votar. Mas levantam uma pergunta que merece ser feita durante a campanha: Se um candidato pretende participar da elaboração das leis que protegem o meio ambiente, qual é a sua própria história diante dessas leis? Essa é uma pergunta que cabe ao eleitor responder diante das urnas.
Fonte principal: Ascema Nacional, com dados do TSE, Ibama e ICMBio.
NJ Notícias — Informação, fiscalização e cidadania.
Descubra mais sobre NJ Notícias
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.






