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O mesmo peso, a mesma medida: se o sigilo caiu para Moraes, por que não abrir a caixa-preta do caso Dark Horse?

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Por Fernando Garayo

A decisão do ministro André Mendonça de retirar o sigilo de informações da investigação que envolve o ministro Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro abre uma discussão que vai muito além do chamado caso Banco Master.
A questão central agora é outra: se a transparência é necessária quando as suspeitas atingem Alexandre de Moraes, ela também precisa valer quando as investigações alcançam aliados e familiares do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Não pode existir uma régua para um lado e outra para o outro. Mendonça determinou que informações da Polícia Federal envolvendo mensagens atribuídas a Vorcaro e sua relação com Moraes fossem tornadas públicas. O material passou a expor detalhes de uma investigação que envolve suspeitas e possíveis conflitos de interesse, enquanto a Procuradoria-Geral da República questionou a validade da iniciativa e pediu a anulação de parte do procedimento. O caso deverá ser analisado pelo plenário do Supremo Tribunal Federal.
É justamente aí que surge a pergunta incômoda. E o caso Dark Horse?
O filme que retrata a trajetória de Jair Bolsonaro entrou no radar das investigações depois que vieram a público informações sobre repasses feitos por Daniel Vorcaro para um fundo ligado à produção. Segundo reportagem da revista Piauí, um novo repasse de US$ 1,6 milhão — cerca de R$ 8,5 milhões — teria ocorrido em setembro de 2025. Com isso, os repasses atribuídos a Vorcaro relacionados ao projeto chegariam a US$ 12,3 milhões, aproximadamente R$ 63,7 milhões.
O caso ganhou uma dimensão ainda maior porque Flávio Bolsonaro aparece no centro das negociações relacionadas ao financiamento da produção. Reportagens apontaram que o senador teria pedido R$ 61 milhões a Vorcaro para concluir o filme.
Flávio nega irregularidades e afirma que não há nada de errado no financiamento da obra. A produtora também apresentou sua versão sobre os recursos. Portanto, é fundamental deixar claro: suspeita não é prova de crime e investigação não significa condenação.
Mas justamente por isso é que se deve investigar. Investigar significa permitir que os fatos sejam esclarecidos, com documentos, perícias, movimentações financeiras e depoimentos.
A pergunta que não quer calar. André Mendonça já determinou investigação relacionada ao caso Dark Horse. A questão que permanece, portanto, não é mais se haverá investigação, mas qual será o grau de transparência aplicado a ela.
A própria defesa da produtora chegou a pedir que Mendonça suspendesse uma investigação conduzida pela Polícia Civil de São Paulo e levasse o caso ao Supremo. Ao mesmo tempo, o ministro Flávio Dino autorizou o acesso da Polícia Federal às provas colhidas pela polícia paulista. Ora, se o princípio defendido por Mendonça é o esclarecimento dos fatos, por que não aplicar ao caso Dark Horse a mesma disposição de transparência demonstrada no caso Moraes?
Por que uma investigação precisa ser aberta quando o nome é Alexandre de Moraes, mas o mesmo nível de publicidade precisa ser questionado quando aparecem Flávio Bolsonaro, Jair Bolsonaro e pessoas ligadas à produção de um filme sobre o ex-presidente?
Essa não é uma pergunta de esquerda ou de direita. É uma pergunta republicana.
O Supremo não pode ter dois pesos. O Brasil já assistiu a episódios demais em que instituições foram acusadas de agir seletivamente.
Existe uma regra simples para evitar isso: mesmo peso, mesma medida. Se mensagens de Daniel Vorcaro são consideradas relevantes para esclarecer sua relação com Alexandre de Moraes, também são relevantes as informações financeiras envolvendo Vorcaro e o financiamento do filme Dark Horse.
Se movimentações financeiras precisam ser investigadas de um lado, também precisam ser investigadas do outro. Se documentos devem ser examinados, que sejam todos.
Se sigilos podem ser levantados para esclarecer suspeitas envolvendo um ministro do Supremo, é legítimo perguntar se o mesmo princípio deve ser aplicado quando as informações dizem respeito a um candidato à Presidência da República e filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.
A transparência não pode ser seletiva. O perigo da investigação como instrumento político pode interferir em um processo eleitoral. Há ainda uma segunda preocupação.
O ministro André Mendonça foi indicado ao Supremo por Jair Bolsonaro. Isso, por si só, não significa que suas decisões sejam politicamente orientadas. Magistrados devem ser julgados pelos atos que praticam não por quem os indicou.
Mas, exatamente por isso Mendonça precisa ser ainda mais cuidadoso. Quando uma investigação atinge Alexandre de Moraes, adversário político histórico do bolsonarismo, qualquer decisão tomada por um ministro indicado por Bolsonaro será inevitavelmente examinada sob uma lupa política,  a única maneira de afastar essa suspeita é agir com absoluta simetria.
Investigue Moraes, Flávio,Vorcaro, o financiamento do filme, qualquer eventual desvio de dinheiro, eventual tráfico de influência, eventual lavagem de dinheiro.
E, principalmente, publique aquilo que puder ser publicado sem prejudicar diligências legítimas. É assim que uma democracia funciona.
Não se trata de defender Moraes, é importante deixar isso absolutamente claro. Cobrar transparência no caso Dark Horse não significa defender Alexandre de Moraes.
Se existem indícios de irregularidades envolvendo Moraes, eles precisam ser investigados. Se houver crime, que haja responsabilização. Se não houver crime, que a investigação demonstre isso. O mesmo vale para Flávio Bolsonaro.
Se houver irregularidade no financiamento do filme, que se descubra. Se não houver, que isso também seja demonstrado documentalmente.
A Justiça não pode trabalhar para confirmar narrativas políticas. Ela precisa trabalhar para descobrir a verdade. O cidadão tem direito de saber
O caso Banco Master e o caso Dark Horse têm algo em comum: Daniel Vorcaro.
De um lado, surgem mensagens e relações envolvendo o banqueiro e Alexandre de Moraes. De outro, aparecem movimentações financeiras relacionadas à produção de um filme sobre Jair Bolsonaro e negociações envolvendo Flávio Bolsonaro.
As duas histórias precisam ser examinadas com a mesma seriedade. Não é aceitável que a transparência seja transformada em arma contra adversários e o sigilo em escudo para aliados.
Se a caixa-preta de Moraes pode ser aberta, a caixa-preta do Dark Horse também precisa estar sob escrutínio. Isso não significa divulgar aquilo que a lei determina que permaneça sob sigilo. Significa cobrar das instituições aquilo que a República exige: investigação independente, devido processo legal, contraditório, presunção de inocência e transparência possível.
André Mendonça tem agora uma oportunidade histórica. Pode demonstrar que não existe lado político na Justiça. Que não existe aliado quando se trata de investigar. Que não existe adversário quando se trata de garantir direitos.
Que o Supremo Tribunal Federal não trabalha com duas réguas. Porque, no final das contas, a pergunta que precisa ser respondida não é se Alexandre de Moraes deve ser investigado. Nem se Flávio Bolsonaro deve ser investigado.
A pergunta é muito maior: A Justiça brasileira terá coragem de aplicar a mesma régua para todos?
É isso que a sociedade espera.
Mesmo peso. Mesma medida. Mesma Justiça.

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