19.3 C
Limeira

Eleições de 2026: A ignorância como proposta.

- PUBLICIDADE -spot_img

Precisa ler isso...

Banner Publicitário

Israel Aparecido Gonçalves

Prof Israel Aparecido Gonçalves

É inacreditável que, numa época de tanta tecnologia disponível, inteligência
artificial, acervos digitais, sistemas de informação, os candidatos à Presidência
da República pareçam ter tão pouco acesso a dados concretos, ou tão pouco
interesse em usá-los. Institutos como o IBGE, e os próprios governos, publicam
anualmente estatísticas detalhadas sobre educação, saúde e política pública. A
informação existe, é pública e é acessível. O que falta, muitas vezes, é
disposição para transformá-la em propostas consistentes.
O caso mais recente é sintomático. Em entrevista à Globo no último sábado
(29/08), o candidato Augusto Cury (Avante) defendeu um aplicativo com botão
de alerta georreferenciado e o uso de drones para acelerar o socorro a
mulheres em situação de violência doméstica. A ideia parte de uma boa
intenção, mas os próprios entrevistadores levantaram o problema óbvio: o
Brasil tem milhares de municípios, muitos deles ainda com acesso precário à
internet, e não ficou claro como a tecnologia chegaria a quem mais precisa
dela. Uma proposta que soa moderna pode, na prática, esbarrar na
desigualdade estrutural que ela mesma deveria enfrentar. E mais, já existe o
botão do pânico para as mulheres vítimas de violência doméstica e projetos
como o Catarina, feitos pela Política Militar de Santa Catarina.
Some-se a isso o fato de que dois governadores de estado, Ronaldo Caiado,
de Goiás, e Romeu Zema, de Minas Gerais, também disputam a Presidência, e
ambos tentam transformar sua gestão estadual em vitrine nacional. É legítimo
que o façam. Mas essa vitrine também precisa resistir ao escrutínio dos dados.
Caiado, por exemplo, construiu boa parte de sua candidatura sobre o
desempenho da educação goiana. Goiás já alcançou o primeiro lugar nacional
no IDEB de 2023, tanto no ensino médio quanto nos anos finais do ensino
fundamental. Todavia, na gestão de Caiado o índice, divulgado em agosto de
2026, o estado perdeu essa liderança para o Paraná. Isso significa que a
educação piorou em sua gestão.
Do outro lado do espectro, o governo Lula, já em seu terceiro mandato,
também não escapa da crítica pela falta de comunicação eficaz de suas
próprias políticas. As pesquisas mais recentes (Genial/Quaest, em janeiro, e
Indexa/Estadão, em agosto de 2026) mostram o presidente oscilando entre
35% e 39% das intenções de voto no primeiro turno, à frente dos concorrentes,
mas longe de uma maioria consolidada. É verdade que uma parcela do
eleitorado segue sem definição, mas essa fatia é menor do que costuma se
supor: cerca de 77% dos entrevistados já afirmam ter decidido seu voto. O
desafio de Lula não é tanto convencer uma massa de indecisos, e sim reverter
a desaprovação que, na mesma pesquisa, superou levemente a aprovação de
seu governo (49% a 47%, em janeiro de 2026).
O fio que conecta esses episódios não é a filiação partidária, é a qualidade do
debate. Candidatos de todos os campos seguem apresentando ideias pontuais,

pouco detalhadas ou descoladas dos próprios dados que eles mesmos
deveriam conhecer melhor do que ninguém. Se há uma ignorância a se temer
nesta eleição, ela não está no eleitor, está na superficialidade com que parte da
classe política ainda trata problemas estruturais de um país do tamanho e da
complexidade do Brasil.
Israel Aparecido Gonçalves é Doutor em Sociologia e Ciência Política pela
Universidade Federa de Santa Catarina (UFSC) e Mestre em Ciência Política
pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Instagram @souprof.israel

Banner Publicitário

Descubra mais sobre NJ Notícias

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Mais notícias...

Deixe uma resposta

- PUBLICIDADE -spot_img

Ultimas Notícias