Por Fernando Garayo

A política costuma cobrar coerência. E ela cobra ainda mais daqueles que fazem da origem geográfica um argumento eleitoral.
Ao criticar a possibilidade de candidaturas de Marina Silva e Simone Tebet ao Senado por São Paulo, sob o argumento de que elas “não são de São Paulo”, o governador Tarcísio de Freitas abriu uma discussão que talvez não lhe seja favorável.
O motivo é simples: Tarcísio também não nasceu em São Paulo. Carioca, torcedor do Flamengo, construiu sua carreira como servidor público federal e chegou ao governo paulista em 2022 sem ter uma trajetória política construída no estado. Sua candidatura foi apresentada principalmente pelo grupo político de Jair Bolsonaro, e esse fato foi amplamente debatido durante a campanha.
O contraste fica evidente quando se observa a situação de Marina Silva. Embora tenha nascido no Acre, Marina é casada com um paulista, foi eleita deputada federal por São Paulo em 2022, assumindo o mandato em 2023 após receber 237.526 votos dos paulistas. Além disso, reside há anos na Baixada Santista, mantendo vínculos políticos e pessoais com o estado.
Já Simone Tebet tem sua trajetória política ligada ao Mato Grosso do Sul. Caso venha a disputar uma vaga por São Paulo, sua candidatura dependerá do cumprimento das exigências legais de domicílio eleitoral, como ocorre com qualquer cidadão.
O ponto central, porém, vai além dos nomes. A Constituição garante a qualquer brasileiro que preencha os requisitos legais o direito de disputar eleições. A democracia não estabelece critérios baseados em local de nascimento, mas em cidadania, direitos políticos e domicílio eleitoral.
Quando um governante escolhe transformar a origem geográfica em argumento político, assume também o risco de ser confrontado pelo próprio histórico. Afinal, se nascer fora de São Paulo fosse motivo para desqualificar candidaturas, o mesmo raciocínio teria recaído sobre o próprio governador durante sua eleição.
A representação política não se mede pelo CEP de nascimento, mas pela confiança do eleitor. Quem decide se um candidato representa ou não São Paulo é o povo paulista nas urnas, e não um certificado de naturalidade.
Num país marcado pela mobilidade de milhões de brasileiros, insistir na ideia de que apenas os “nativos” podem representar determinado estado empobrece o debate público. A política deveria discutir projetos, competência e compromisso com a população — não a certidão de nascimento dos candidatos.
A coerência continua sendo um dos bens mais escassos da vida pública. E, quando ela falta, o discurso costuma retornar como um espelho incômodo para quem o pronunciou.
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