Por Fernando Garayo

A declaração do presidente do Partido Liberal (PL), Valdemar Costa Neto, ao justificar a extinção da presidência do PL Mulher com a frase “mulher arruma enguiço com 20”, vai muito além de uma infeliz escolha de palavras. Ela revela uma visão de mundo que ainda encontra espaço na política brasileira: a de que a participação feminina é um problema a ser administrado, e não um direito a ser fortalecido.
A afirmação surgiu ao comentar o fim do cargo que foi ocupado por Michelle Bolsonaro. Em vez de apresentar razões administrativas, partidárias ou estratégicas para a mudança, Valdemar recorreu a um estereótipo antigo e profundamente machista: o de que mulheres são naturalmente conflituosas.
O problema dessa narrativa é que ela desconsidera a realidade. Mulheres ocupam cargos de liderança em empresas, universidades, tribunais, governos e organizações sociais em todo o mundo. Quando há divergências entre homens na política, isso costuma ser tratado como disputa de poder ou divergência estratégica. Quando envolve mulheres, frequentemente recorre-se ao velho clichê de que elas “brigam demais” ou “criam problemas”.
Esse tipo de discurso ajuda a perpetuar barreiras invisíveis à participação feminina. O Brasil já possui uma das menores representações de mulheres nos parlamentos entre as grandes democracias. Apesar de serem maioria do eleitorado, elas continuam sub-representadas nos espaços de decisão. Declarações como essa reforçam preconceitos que dificultam ainda mais sua ascensão política.
Há uma ironia evidente. Partidos costumam defender publicamente o aumento da participação das mulheres, criam secretarias femininas, lançam campanhas pela igualdade e afirmam combater a discriminação. Entretanto, quando seu principal dirigente resume a atuação feminina a um suposto “enguiço”, a mensagem transmitida é exatamente a oposta.
Não se trata de censurar uma frase isolada, mas de compreender o que ela representa. A linguagem molda culturas políticas. Naturalizar comentários desse tipo significa aceitar que o machismo continue sendo tratado como humor ou sabedoria popular, quando, na verdade, reproduz preconceitos históricos.
A democracia se fortalece quando amplia vozes, não quando desqualifica grupos inteiros por meio de generalizações. Mulheres não “arrumam enguiço” por serem mulheres. Elas discordam, disputam espaços, defendem projetos e exercem liderança — exatamente como os homens fazem na política.
Se há conflitos dentro dos partidos, eles decorrem da natureza da atividade política, marcada por disputas de ideias, interesses e poder. Reduzir isso ao gênero é simplificar a realidade e reforçar estereótipos incompatíveis com uma democracia que pretende ser inclusiva.
A frase de Valdemar Costa Neto talvez seja lembrada não apenas pelo constrangimento que provocou, mas por expor que, mesmo em pleno século XXI, ainda há dirigentes partidários que enxergam a presença feminina mais como um inconveniente do que como uma condição indispensável para o fortalecimento da democracia brasileira.
A pergunta que fica! Têm mulheres que votam em candidatos do PL ainda?
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