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Marajó: como fake news sobre exploração infantil abriram caminho para a disputa por terras públicas e favoreceram a expansão de igrejas evangélicas

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Por Fernando Garayo

Arquipélos de Marajó onde sua população foi vitima das fake news. Foto: Redes Sociais.

Com a aproximação das eleições que ocorrerão em outubro onde elegeremos presidente e vice- presidente da república, governadores de estados, deputados estaduais e federais, e senadores, nós eleitores vamos estar expostos a muitas publicações enganosas, as chamadas “fake news”. O NJ estreia hoje um espaço para desmentir essa prática usada por grupos políticos ideológicos para induzir o eleitor. Vamos começar por uma fake news que gerou inclusive um processo a senadora Damaris Alves (Replubicanoa), do Ministério Público Federal pela disseminação de mentiras sobre o arquipélago de Marajó.

O arquipélago do Marajó, no Pará, tornou-se, nos últimos anos, um dos principais exemplos de como a desinformação pode influenciar políticas públicas, disputas fundiárias e projetos de poder. O que começou com denúncias sobre exploração sexual de crianças — um problema real e documentado há décadas por autoridades e organizações sociais — foi acompanhado pela disseminação de informações sem comprovação, que ajudaram a construir uma narrativa de comoção nacional.

Segundo investigação publicada pelo UOL em parceria com o Pulitzer Center, essa narrativa foi utilizada para justificar ações do programa Abrace o Marajó, lançado em 2020 pelo então Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, comandado por Damares Alves. A apuração aponta que, além do discurso de proteção à infância, o programa esteve ligado à expansão da presença de igrejas evangélicas e a mudanças na ocupação de terras públicas da União.

O problema real e a desinformação

A exploração sexual de crianças e adolescentes no Marajó é uma realidade reconhecida desde meados dos anos 2000, tendo sido investigada por CPIs e denunciada por lideranças religiosas, como o bispo Dom José Luís Azcona. Entretanto, investigações posteriores não encontraram provas para afirmações que ganharam enorme repercussão pública, como a de que meninas do arquipélago teriam dentes arrancados para facilitar abusos ou que deixariam de usar roupas íntimas por esse motivo.

Essas declarações, repetidas por autoridades e amplificadas nas redes sociais, passaram a ser classificadas pelo Ministério Público Federal e por órgãos do governo federal como desinformação.

Terras da União no centro da investigação

Um dos aspectos mais sensíveis revelados pela investigação do UOL envolve o patrimônio da União.

Grande parte das áreas ocupadas por comunidades ribeirinhas no Marajó pertence formalmente à União. Os moradores tradicionais possuem instrumentos de uso e ocupação, mas não são proprietários dessas terras.

Segundo a reportagem, durante a execução do programa Abrace o Marajó, diversas comunidades foram estimuladas a ceder áreas para a construção de templos evangélicos. Na prática, ribeirinhos assinavam documentos de doação ou cessão de terrenos que, juridicamente, pertencem ao patrimônio público federal.

Especialistas em direito fundiário ouvidos pelo UOL afirmam que comunidades tradicionais não têm poder para doar terras da União como se fossem propriedades privadas. A investigação sustenta que esse mecanismo abriu espaço para conflitos fundiários, ocupações questionadas e favorecimento institucional à expansão de determinadas igrejas.

Expansão religiosa e influência política

A investigação aponta que a implantação de templos ocorreu paralelamente ao fortalecimento da atuação política de lideranças evangélicas na região.

Em diversas comunidades isoladas, onde a presença do Estado é limitada, igrejas passaram a exercer funções sociais importantes, oferecendo assistência e organização comunitária. Ao mesmo tempo, críticos do programa afirmam que a evangelização acabou se confundindo com políticas públicas, criando uma relação de dependência e influência política.

As igrejas mencionadas nas reportagens negam qualquer irregularidade e sustentam que seu trabalho é exclusivamente religioso e social. Já Damares Alves também rejeita as acusações e afirma que sua atuação sempre teve como objetivo proteger crianças e adolescentes.

A disputa pelo território

O Marajó desperta crescente interesse econômico devido ao potencial para atividades agropecuárias, projetos ambientais e mercado de créditos de carbono.

Segundo a investigação, a regularização de áreas públicas ocorrida durante o programa gerou preocupação entre especialistas porque poderia facilitar futuras disputas sobre terras tradicionalmente ocupadas por populações ribeirinhas e quilombolas. O UOL relata ainda que houve aumento expressivo na emissão de instrumentos de autorização de uso durante esse período.

O impacto das fake news

Para moradores do arquipélago, o maior prejuízo foi a estigmatização da região.

Lideranças comunitárias afirmam que o Marajó passou a ser conhecido nacionalmente quase exclusivamente por histórias de violência sexual, muitas delas distorcidas ou falsas. Enquanto isso, problemas históricos — como pobreza, isolamento, falta de escolas, atendimento de saúde, saneamento básico e transporte — continuaram sem solução estrutural.

Além disso, a circulação de conteúdos falsos nas redes sociais mobilizou campanhas políticas e religiosas e levou a Advocacia-Geral da União a determinar a identificação de redes responsáveis pela disseminação da desinformação.

Um debate que vai além da religião

O caso Marajó demonstra como a desinformação pode produzir consequências concretas. Quando notícias falsas são utilizadas para justificar políticas públicas, seus efeitos podem alcançar populações vulneráveis, alterar disputas territoriais e favorecer projetos políticos e religiosos.

O combate à exploração sexual infantil exige investigação séria, fortalecimento das instituições, proteção às vítimas e investimentos permanentes em educação, assistência social e segurança pública. Transformar esse drama humano em instrumento de disputa ideológica ou de interesses fundiários compromete a credibilidade das políticas públicas e aprofunda a vulnerabilidade das comunidades tradicionais do arquipélago.

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