Por Fernando Garayo

Em 12 de julho de 1990, o futebol brasileiro perdeu uma de suas personalidades mais marcantes. Aos 73 anos, o jornalista, treinador e comentarista João Alves Jobim Saldanha, o inesquecível João Saldanha, morreu em Roma, vítima de um edema pulmonar. Internado no Hospital Santo Eugênio, na capital italiana, ele cobria a Copa do Mundo de 1990 para a Rede Manchete quando sua trajetória chegou ao fim.
Sua morte encerrou uma carreira marcada por coragem, inteligência e uma independência rara. Saldanha jamais foi um personagem acomodado. Contestador por natureza, dono de um temperamento forte e de opiniões contundentes, tornou-se um dos maiores símbolos da liberdade de pensamento no esporte brasileiro.
Nascido em 3 de julho de 1917, em Alegrete, no Rio Grande do Sul, construiu sua história no Rio de Janeiro, cidade onde consolidou duas paixões que levaria por toda a vida: o jornalismo e o Botafogo de Futebol e Regatas. Botafoguense apaixonado, nunca escondeu seu amor pelo clube, mesmo quando isso contrariava a exigida neutralidade dos comentaristas esportivos.
O técnico que montou a Seleção do tricampeonato
Embora tenha tido uma brilhante carreira como jornalista, foi no comando da Confederação Brasileira de Futebol que João Saldanha entrou definitivamente para a história.
Em 1969, assumiu uma Seleção Brasileira desacreditada após o fracasso na Copa de 1966. Com personalidade firme, reorganizou a equipe, definiu uma espinha dorsal e convocou jogadores que se transformariam em lendas do futebol mundial.
Sob seu comando surgiram, reunidos na Seleção, nomes como Pelé, Tostão, Gérson, Jairzinho, Rivellino, Clodoaldo, Carlos Alberto Torres e Félix — a base do time que conquistaria o tricampeonato mundial no México, em 1970.
Saldanha dirigiu o Brasil nas Eliminatórias e venceu todas as partidas. Deixou a Seleção invicta.
O confronto com a ditadura
Seu maior embate, entretanto, ocorreu fora das quatro linhas.
Durante a ditadura militar, o presidente-general Emílio Garrastazu Médici tentou interferir na escalação da Seleção, sugerindo a convocação do atacante Dadá Maravilha.
A resposta de João Saldanha entrou para a história.
Segundo diversos relatos históricos, o treinador afirmou que o presidente deveria cuidar do governo e deixar a escalação da Seleção para quem entendia de futebol.
Pouco tempo depois, acabou afastado do cargo.
Oficialmente, alegaram divergências técnicas e problemas de saúde. Na prática, historiadores do esporte e pesquisadores apontam que o conflito político com a ditadura teve papel decisivo em sua saída.
Seu sucessor foi Mário Jorge Lobo Zagallo, que manteve grande parte da estrutura montada por Saldanha e conduziu a equipe ao tricampeonato mundial.
O jornalista que não fazia concessões
Após deixar a Seleção, João Saldanha voltou ao jornalismo esportivo.
Transformou-se em um dos comentaristas mais respeitados do país, conhecido pela capacidade de analisar partidas com profundidade, sem abrir mão da crítica.
Na televisão, no rádio e nos jornais, conquistou admiradores justamente por não poupar dirigentes, cartolas ou jogadores quando julgava necessário.
Sua linguagem direta aproximava o futebol da política, da cultura e da sociedade, tornando seus comentários muito mais amplos do que simples análises esportivas.
O último Mundial
Em 1990, já consagrado como comentarista, viajou à Itália para cobrir a Copa do Mundo pela Rede Manchete.
Durante a competição, sua saúde se agravou. Internado em Roma, morreu em 12 de julho, aos 73 anos, vítima de um edema pulmonar.
A notícia causou grande comoção no Brasil. O país perdia um jornalista brilhante, um técnico histórico e um dos maiores intelectuais do futebol nacional.
Um legado que permanece
Trinta e seis anos após sua morte, João Saldanha continua sendo lembrado não apenas pelos resultados conquistados, mas pela coerência entre suas ideias e suas atitudes.
Foi um profissional que jamais separou futebol, ética e cidadania. Defendeu sua autonomia diante do poder político quando isso poderia custar sua carreira. Pagou o preço, mas entrou definitivamente para a história.
Seu legado permanece como referência para jornalistas, treinadores e todos aqueles que acreditam que o esporte deve ser conduzido com independência, coragem e compromisso com a verdade.
Mais do que um treinador ou comentarista, João Saldanha tornou-se um símbolo de um tempo em que pensar diferente exigia coragem. E talvez seja exatamente por isso que sua voz continue ecoando no futebol brasileiro, 36 anos depois de sua despedida.
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