Por Fernando Garayo

Se pedir a uma potência estrangeira que ataque o próprio país virou manifestação política, é preciso perguntar: que patriotismo é esse que deseja ver a pátria de joelhos?
Há momentos em que a política deixa de ser apenas um espetáculo constrangedor e passa a revelar algo muito mais preocupante: o grau de irresponsabilidade a que determinados setores estão dispostos a chegar para alimentar suas disputas ideológicas. A manifestação bolsonarista realizada neste domingo, 18 de outubro, na Avenida Paulista, em São Paulo, descrita como um ato de apoio a Flávio Bolsonaro reúne imagens e atitudes que exigem uma reflexão séria sobre o futuro do Brasil.
Durante o ato bolsonarista, manifestantes exibiram bandeiras dos Estados Unidos e carregaram um míssil inflável, em uma encenação que incluía um pedido para que Donald Trump lançasse uma bomba atômica contra o Brasil.
A cena foi essa, estamos diante de algo que ultrapassa a fronteira do ridículo. É uma demonstração de desprezo pela própria ideia de soberania nacional.
Desde quando amar o Brasil significa pedir que outro país o destrua?
A bandeira brasileira, símbolo de uma nação construída por milhões de trabalhadores, não deveria servir de adereço para quem trata a soberania como mercadoria política. Muito menos deveria ser substituída, em manifestações supostamente patrióticas, por símbolos de uma potência estrangeira à qual se atribui o poder de castigar o próprio povo brasileiro.
E o míssil inflável? Seria uma piada de mau gosto se não estivesse associado a uma mensagem tão grave. Uma bomba atômica não distingue eleitores de adversários, bolsonaristas de petistas, ricos de pobres ou apoiadores e opositores. Uma arma nuclear destrói vidas, famílias, cidades, hospitais, escolas e o futuro de gerações inteiras.
Não existe patriotismo em desejar uma catástrofe nuclear para o próprio país. Existe, no mínimo, uma assustadora banalização da violência e uma disposição de transformar o Brasil em instrumento de vingança política.
O patriotismo que se ajoelha diante de Washington
O Brasil não precisa escolher entre ser aliado dos Estados Unidos e defender sua independência. Relações internacionais maduras se constroem com diálogo, respeito mútuo e defesa dos interesses nacionais — não com pedidos de intervenção estrangeira, ameaças ou encenações de destruição.
Patriotismo não é obedecer a um presidente americano. Não é aplaudir qualquer decisão de Washington. Não é imaginar que um governante estrangeiro tenha o direito de decidir o destino de 200 milhões de brasileiros.
Patriotismo é defender o território nacional, proteger a população, respeitar as instituições e compreender que divergências políticas precisam ser resolvidas pelos brasileiros, dentro das regras democráticas.
Quem pede que uma potência estrangeira ataque o Brasil deveria explicar o que exatamente pretende salvar depois que a destruição tiver acontecido. A democracia? Não. A economia? Muito menos. As famílias brasileiras? Certamente não.
A imagem de um míssil, mesmo inflável, acompanhada de um apelo por uma bomba atômica é o retrato de uma política que corre o risco de perder completamente o senso de responsabilidade. A provocação pode render fotografias, aplausos e vídeos para as redes sociais. Mas não pode ser tratada como uma atitude normal de quem diz defender a pátria.
O perigo que vai além de uma manifestação
O episódio também levanta uma questão que não pode ser ignorada às vésperas da eleição presidencial de 2026: o que acontece quando a radicalização política deixa de ser apenas discurso de campanha e passa a tratar a própria nação como inimiga?
O problema não é a existência de manifestações de direita. Em uma democracia, conservadores, progressistas, liberais, socialistas e todos os demais grupos têm o direito de defender suas ideias pacificamente.
O problema começa quando a disputa política passa a justificar a humilhação internacional do país, a hostilidade contra adversários e a ideia de que qualquer meio seria aceitável para derrotar o campo político rival.
Se lideranças ou grupos políticos toleram esse tipo de comportamento, precisam responder por sua posição. Não basta invocar Deus, família e pátria nos palanques enquanto manifestações associadas ao próprio campo político flertam simbolicamente com a destruição do país.
A pergunta é inevitável: que projeto de Brasil pode nascer de uma política que transforma adversários em inimigos absolutos e enxerga a pressão de uma potência estrangeira como instrumento legítimo de disputa interna?
Não se deve atribuir automaticamente a todos os bolsonaristas a responsabilidade pelas atitudes de alguns manifestantes. Mas tampouco se pode fingir que símbolos e palavras não importam. Eles revelam limites morais, prioridades políticas e o tipo de comportamento que determinados grupos estão dispostos a normalizar.
O alerta para 2027
A eleição presidencial de 2026 não é apenas uma disputa entre nomes e partidos. É também uma escolha sobre o papel do Brasil no mundo, a preservação das instituições democráticas e a maneira como o país lidará com suas diferenças internas.
A possibilidade de um governo bolsonarista a partir de 2027 precisa ser debatida com base em propostas, compromissos públicos, histórico político e fatos verificáveis — não em fantasias ou previsões automáticas. Mas episódios como esse merecem atenção porque ajudam a expor a dimensão que a radicalização pode alcançar quando a lealdade partidária passa a valer mais do que a responsabilidade nacional.
Um governo comprometido com a soberania brasileira deve ter independência para negociar com Washington, Pequim, Moscou ou qualquer outra capital sem transformar alianças internacionais em submissão política.
Também deve reconhecer que o presidente da República governa para todos os brasileiros, inclusive para aqueles que votaram contra ele. O país não pertence a uma família política, a um partido ou a uma corrente ideológica.
A democracia não exige que os cidadãos concordem entre si. Exige que reconheçam limites: a vida humana importa, a soberania nacional importa e o resultado das disputas políticas não pode ser a destruição do país.
A pátria não é brinquedo de extremistas
O Brasil já conhece os custos da intolerância, da perseguição política e da transformação de adversários em inimigos. Não precisa importar novas formas de radicalismo nem converter a política externa em palco de humilhação nacional.
Uma manifestação pode ser barulhenta, provocadora e controversa. O que não pode é escapar ao debate público quando suas imagens e mensagens parecem celebrar a possibilidade de um ataque contra a própria população.
Se o objetivo era provocar, a provocação fracassou moralmente. Se era fazer uma declaração política, ela merece ser condenada pelo que representa. E, se era uma encenação para as redes sociais, a pergunta continua de pé: quantos princípios estão dispostos a sacrificar por alguns minutos de repercussão?
O Brasil não precisa de políticos que peçam proteção estrangeira contra os próprios compatriotas. Precisa de lideranças que defendam seus interesses, respeitem a Constituição e compreendam que a soberania não é negociável conforme a conveniência eleitoral.
Quem pede uma bomba atômica contra o Brasil não está defendendo a pátria. Está transformando a pátria em refém de sua própria radicalização.
E o eleitor brasileiro tem o direito — e a responsabilidade — de observar esses sinais antes de decidir quem receberá, em 2027, a tarefa de governar uma nação inteira.
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