Por Fernando Garayo

Há apelidos que surgem por acaso. Outros são conquistados com esforço. No caso de “Tariflávio”, o apelido nasce da associação cada vez mais evidente entre setores do bolsonarismo e a política de tarifas, sanções e pressões econômicas defendidas pelo ocupante da Casa Branca contra diversos países ao redor do mundo.
Uma eventual vitória eleitoral de um projeto político alinhado a essa visão representaria muito mais do que uma simples alternância de poder. Seria a possibilidade de o Brasil importar um modelo de governo baseado no conflito permanente, na polarização como método e na submissão dos interesses nacionais a disputas ideológicas internacionais.
O mundo já está observando as consequências desse tipo de política. Em diversas partes do planeta, guerras comerciais, aumento de tarifas, confrontos diplomáticos e ataques constantes às instituições têm produzido insegurança econômica, afastamento de investimentos e instabilidade política. Quando líderes transformam a política em uma guerra sem fim entre “nós” e “eles”, quem paga a conta é sempre a população.
Uma vitória de Flávio Bolsonaro não significaria apenas a continuidade do bolsonarismo. Significaria aprofundar uma lógica que já demonstrou seus limites. O agronegócio, a indústria e os exportadores brasileiros dependem de mercados internacionais estáveis. O Brasil é uma potência exportadora e não pode se dar ao luxo de entrar em aventuras diplomáticas ou comerciais movidas por disputas ideológicas.
A experiência recente mostra que o país cresce quando dialoga com todos os blocos econômicos, mantendo relações equilibradas com os Estados Unidos, a Europa, a China, os países árabes e a América Latina. O nacionalismo responsável busca ampliar mercados. O nacionalismo de palanque cria inimigos imaginários e fecha portas.
O mais preocupante é que parte da extrema direita brasileira parece admirar justamente os aspectos mais controversos desse modelo. Ataques à imprensa, desconfiança sistemática das instituições, questionamentos sem provas sobre processos eleitorais e a ideia de que qualquer oposição representa uma ameaça à nação. Trata-se de uma receita conhecida e perigosa.
Os defensores desse projeto costumam falar em patriotismo. Mas patriotismo verdadeiro não consiste em aplaudir interesses estrangeiros quando eles prejudicam a economia nacional. Não consiste em torcer contra o próprio país para obter vantagens eleitorais. Muito menos em defender medidas que possam prejudicar trabalhadores, empresários e produtores brasileiros.
O Brasil possui problemas reais: desigualdade, baixa produtividade, infraestrutura deficiente, educação que precisa avançar e um sistema tributário complexo. Nenhum desses desafios será resolvido com discursos inflamados nas redes sociais ou com a importação de guerras culturais produzidas em outros países.
A democracia brasileira já enfrentou crises suficientes para compreender o valor da estabilidade institucional. O país precisa de governos capazes de construir pontes, não de ampliar trincheiras. Precisa de diálogo, não de confrontação permanente. Precisa de desenvolvimento econômico, não de cruzadas ideológicas.
Estamos assistindo ao que acontece em várias partes do mundo quando lideranças apostam no conflito como estratégia de governo. As consequências estão à vista: tensão, incerteza e divisões cada vez mais profundas dentro das próprias sociedades.
Espero sinceramente que os brasileiros possam observar esses exemplos com atenção. Porque uma coisa é acompanhar de longe os efeitos dessas experiências. Outra, muito diferente, é ter que vivê-las diretamente em casa.
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