
Na tarde de sexta-feira em que o incêndio tomou conta do prédio, não era apenas uma estrutura que ardia. Havia algo de íntimo sendo consumido. Para muitos, era “mais uma escola”. Para outros — como eu —, era o lugar onde a infância aprendeu a escrever o próprio nome.
Passei ali anos decisivos da minha vida, da alfabetização, corredores que hoje são cinza já foram palco de corridas apressadas no intervalo, de risadas que ecoavam sem pedir licença. As salas, que o fogo reduziu a escombros, foram cenários de descobertas miúdas e gigantescas: a primeira redação elogiada, o medo de uma prova de matemática, o encanto por uma professora que ensinava mais que conteúdo — ensinava mundo.
Ver as imagens do incêndio foi como assistir a um filme que não deveria existir. As chamas subiam pelas paredes com uma voracidade quase simbólica, como se quisessem apagar não só o presente físico do prédio, mas também o passado que ela guardava. E ali, entre a fumaça densa, parecia possível enxergar vultos invisíveis: crianças correndo, cadernos sendo abertos, vozes chamando para o recreio.
A dor não vem apenas da perda material. Vem daquilo que não se reconstrói com cimento. Uma escola é, antes de tudo, um território afetivo. É onde se aprende a conviver, a errar, a tentar de novo. Onde a infância deixa suas marcas mais profundas, mesmo quando não percebemos.
O incêndio da Escola Prada não destruiu apenas uma edificação em Limeira. Ele expôs uma fragilidade maior — a de como lidamos com a memória coletiva. Quantas histórias estavam ali, guardadas em arquivos, quadros, carteiras riscadas com nomes de quem já seguiu outros caminhos? Quantas vidas foram atravessadas por aquele espaço?
Para mim, ficou um vazio difícil de nomear. Uma sensação de que um pedaço da minha própria história foi levado junto pelas chamas. Não é exagero: dói no peito. Dói como uma saudade que não terá mais endereço físico.
Mas há algo que o fogo não alcança. Ele pode consumir paredes, telhados, objetos. Não consegue, porém, apagar o que foi vivido. As lembranças sobrevivem mesmo chamuscadas pela tristeza. E talvez seja nelas que a Escola Prada continue existindo — não mais como prédio, mas como presença.
No fim, o incêndio deixa um rastro de cinzas, mas também uma pergunta incômoda: o que fazemos com aquilo que marcou nossas vidas quando ele desaparece diante dos nossos olhos?
No meu caso, resta escrever. Porque, às vezes, é a única forma de salvar do fogo aquilo que não pode ser reconstruído.
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