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Fato ou Fake: Fábricas fechadas, mas não no Brasil: como a desinformação transforma decisões no exterior em suposta crise nacional

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Por Fernando Garayo
Publicações nas redes sociais usam casos reais de multinacionais em outros países para criar a falsa impressão de que empresas estão abandonando o Brasil por causa da economia. Uma nova onda de publicações nas redes sociais tenta construir a imagem de que multinacionais estariam fechando fábricas, lojas e unidades de produção em massa no Brasil. O problema é que, em vários dos casos apresentados, o fato é real, mas o local e o contexto estão errados.
A estratégia transforma decisões empresariais tomadas em outros países em supostas consequências da economia brasileira. O resultado é uma narrativa de que o país estaria vivendo uma fuga generalizada de empresas provocada pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Uma checagem publicada pelo UOL Confere nesta terça-feira (8) mostrou que a lista compartilhada nas redes mistura acontecimentos verdadeiros com informações descontextualizadas e falsas. Entre os exemplos estão empresas como Nestlé, Domino’s, Electrolux, Whirlpool e Volkswagen.
Um dos mecanismos mais eficientes da desinformação contemporânea não é inventar completamente uma história. É utilizar um fato verdadeiro e acrescentar a ele uma interpretação falsa.
A Nestlé, por exemplo, realmente fechou unidades industriais, mas os casos citados ocorreram na Hungria e na Alemanha, e não no Brasil.
A Domino’s também fechou lojas, mas os episódios mencionados nas publicações ocorreram na Austrália e na Nova Zelândia.
No caso da Electrolux, houve encerramento de atividades na Hungria e no Chile, além de um processo de reestruturação na Itália.
Ou seja: as empresas efetivamente adotaram medidas de redução ou reorganização de suas operações. O que não corresponde à realidade é apresentar esses episódios como se fossem fechamentos provocados pela crise brasileira.
Outro exemplo utilizado nas redes sociais envolve a brasileira Lupo. Publicações sugeriram que a empresa estaria transferindo sua produção para o Paraguai e deixando o Brasil. A realidade é diferente.
A companhia inaugurou uma fábrica no país vizinho, mas não encerrou sua produção no Brasil. A existência de uma nova unidade no exterior foi transformada, nas redes, em uma suposta transferência integral das operações brasileiras.

É uma diferença fundamental. Abrir uma fábrica em outro país faz parte das estratégias de expansão e internacionalização de empresas. Não significa, automaticamente, abandonar o país de origem.

Nem todo fechamento tem relação com a economia. A lista que circula nas redes também reúne situações completamente diferentes entre si.
Um exemplo citado pelo UOL Confere é o fechamento da fábrica da Isover Saint-Gobain em São Paulo. A decisão ocorreu após um acordo entre a empresa e o Ministério Público relacionado a reclamações de moradores sobre impactos provocados pela unidade.

Portanto, atribuir esse fechamento exclusivamente a uma suposta crise econômica nacional também seria incorreto.
Esse tipo de mistura é justamente o que torna a desinformação aparentemente convincente. São acontecimentos diferentes — envolvendo países, setores, empresas e circunstâncias distintas — reunidos em uma única lista para produzir uma conclusão política.

Existe crise no varejo? Sim. Mas ela é global

Isso não significa que todos os problemas apresentados nas redes sejam inexistentes. O varejo brasileiro enfrenta dificuldades e empresas brasileiras passaram por processos de recuperação judicial.
Mas especialistas ouvidos pelo UOL Confere destacam que o fenômeno não é exclusivamente brasileiro.
Segundo Ricardo Pastore, coordenador dos núcleos de varejo da ESPM, o setor passa por uma transformação global provocada por fatores como juros elevados, mudanças tecnológicas e alterações no comportamento dos consumidores.
A mudança no comércio eletrônico, à transformação dos hábitos de consumo e a necessidade de adaptação das empresas alteraram profundamente o funcionamento do varejo em vários países.
Portanto, pegar problemas que existem no Brasil e apresentá-los como fenômeno exclusivamente provocado pelo governo brasileiro é uma simplificação que não corresponde ao cenário internacional.

Recuperação judicial não significa falência
Outro ponto importante da narrativa é a utilização do crescimento dos pedidos de recuperação judicial como prova de que empresas estariam quebrando em massa.
O Brasil registrou aumento nos pedidos de recuperação judicial. Isso é um dado real.
Mas recuperação judicial não é sinônimo de falência. O mecanismo existe justamente para permitir que empresas endividadas reorganizem suas finanças e continuem funcionando.
Segundo os dados citados pelo UOL Confere, embora os pedidos de recuperação judicial tenham alcançado níveis elevados, o número de falências ficou no menor patamar desde 2012.
Uma empresa pedir recuperação judicial significa que enfrenta dificuldades financeiras. Não significa necessariamente que encerrou suas atividades ou que deixará o país.
O Brasil continua sendo um mercado importante para multinacionais. Existe ainda outro elemento que desmonta a ideia de uma fuga generalizada de multinacionais.
Para empresas globais, decisões sobre fábricas e lojas são tomadas levando em consideração mercados diferentes, custos, logística, demanda tecnologia, mão de obra e estratégias de longo prazo.
O especialista Ricardo Pastore avaliou que o Brasil continua sendo um mercado relevante para multinacionais justamente pelo tamanho de sua economia e de seu mercado consumidor.
Uma empresa multinacional pode fechar uma fábrica na Europa e, ao mesmo tempo, ampliar investimentos na América Latina. Pode reduzir lojas em determinado país e abrir unidades em outro. Não existe necessariamente uma relação automática entre essas decisões.

Para Sérgio Lüdtke, editor-chefe do Projeto Comprova e secretário-executivo da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), o mecanismo utilizado nesse tipo de conteúdo se aproveita de algo que as pessoas já conhecem.
Empresas realmente fecham unidades. Trabalhadores realmente perdem empregos. Famílias realmente enfrentam dificuldades financeiras.
A desinformação pega esses elementos verdadeiros e os reorganiza para produzir uma conclusão diferente.
Segundo Lüdtke, entre as estratégias estão a descontextualização, o apelo emocional, o exagero e o alarmismo. É uma fórmula poderosa: fato verdadeiro + informação omitida + título alarmista = narrativa enganosa. A repetição transforma a mentira em “verdade”
Outro elemento apontado pelos especialistas é a repetição. Uma informação publicada por um perfil pode parecer apenas mais uma postagem. Quando dezenas ou centenas de contas reproduzem a mesma narrativa, entretanto, o conteúdo começa a adquirir aparência de verdade. O usuário vê a mesma afirmação no Facebook, no Instagram, no WhatsApp, no Threads e em vídeos.

A repetição cria familiaridade. E familiaridade, muitas vezes, é confundida com veracidade. “Todo mundo está falando”, pensa o usuário.
Mas o fato de uma informação ser repetida milhares de vezes não transforma uma falsidade em realidade. A desinformação chega em um momento eleitoral o contexto político também é relevante.
O Brasil está em ano eleitoral, e a economia é tradicionalmente um dos principais temas sutilizados em disputas políticas.
Conteúdos que apresentam empresas fechando, fábricas paralisadas e trabalhadores sendo demitidos possuem forte capacidade de provocar medo e indignação.
A publicação deixa de ser apenas uma informação econômica e passa a funcionar como argumento político.
O UOL Confere informou que a lista analisada também foi divulgada nas redes sociais pelo deputado federal e candidato ao Senado Gustavo Gayer (PL-GO) e pelo empresário e político Pablo Marçal (PRTB). As assessorias dos dois foram procuradas pelo UOL, mas não responderam até a publicação da checagem.
Nos últimos dias, outras informações relacionadas a supostas demissões e encerramentos de empresas também foram desmentidas por verificadores.
Em uma checagem publicada em 3 de setembro, por exemplo, o UOL Confere mostrou que um vídeo apresentado nas redes como prova de demissões de milhares de trabalhadores no Nordeste, na realidade, registrava uma greve em Itaboraí, no Rio de Janeiro.
O vídeo mostrava trabalhadores reivindicando melhores condições de trabalho, e não protestando contra demissões em massa.
A mesma checagem mencionou outros conteúdos enganosos envolvendo empresas como Toyota, Domino’s e Lupo.

Como o leitor pode identificar a manipulação

Diante desse tipo de conteúdo, algumas perguntas simples podem evitar o compartilhamento de uma informação falsa:
Onde aconteceu? Uma fábrica fechou no Brasil ou em outro país? Quando aconteceu? O episódio é recente ou uma notícia antiga reapresentada como atual? Por que fechou?
A empresa deixou o país por razões econômicas? Houve reestruturação? Mudança tecnológica? Problemas ambientais? Redução de demanda? A empresa realmente saiu do Brasil?
Uma nova fábrica no exterior significa necessariamente encerramento das atividades brasileiras?
A postagem apresenta uma reportagem confiável ou apenas uma imagem com letras grandes e uma afirmação sem fonte?
O principal problema dessas publicações não é simplesmente apresentar uma informação incorreta.
É construir uma conclusão falsa a partir de informações parcialmente verdadeiras.
É possível afirmar simultaneamente que uma empresa fechou uma fábrica na Alemanha e que ela continua funcionando no Brasil.
É possível afirmar que uma multinacional reduziu operações em determinado país e que ampliou investimentos em outro.
É possível afirmar que o varejo brasileiro enfrenta dificuldades e, ao mesmo tempo, reconhecer que o setor passa por uma transformação global. Uma coisa não elimina a outra.
Em tempos de polarização política, a informação econômica passou a ser utilizada como instrumento de disputa eleitoral.
Nesse ambiente, títulos chamativos, números sem contexto e imagens de fábricas vazias podem produzir uma impressão muito mais forte do que dezenas de linhas de explicação.
Por isso, a responsabilidade do leitor também aumentou.
Antes de compartilhar uma publicação dizendo que “mais uma multinacional está deixando o Brasil”, é necessário fazer uma pergunta simples:
Ela realmente está deixando o Brasil — ou alguém está usando uma notícia de outro país para fazer parecer que isso aconteceu aqui?
No caso analisado pelo UOL Confere, a resposta é clara: diversos dos casos apresentados como sinais de uma debandada empresarial brasileira ocorreram em outros países ou possuem explicações completamente diferentes daquelas apresentadas nas redes sociais.
A economia brasileira pode — e deve — ser criticada quando os números justificarem a crítica.
Empresas podem fechar. Empregos podem ser perdidos. O varejo pode enfrentar uma crise. Governos podem cometer erros.
Mas transformar acontecimentos ocorridos na Hungria, Alemanha, Austrália, Nova Zelândia, Chile ou Itália em uma suposta prova de colapso econômico brasileiro não é análise econômica.

É desinformação.

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