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Uma sociedade mais justa: robotização como liberdade?

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Prof Israel Aparecido Gonçalves

Imagine uma fábrica onde só há robôs. Eles produzem mil geladeiras por dia, com
perfeição e sem parar, em escala de trabalho 7 por 0. Só há um problema crucial:
ninguém vai comprá-las. Essa cena, que hoje parece ficção, é um retrato da robotização
e do que pode ser feito no sistema capitalista. Ao mesmo tempo que o patrão não paga
mais salário aos robôs, também não conseguirá vender seus produtos para os
consumidores — que são trabalhadores assalariados. A robotização em escala é a
primeira etapa para fim do sistema capitalista.
A automação ou a indústria 4.0 avança sobre a indústria e os serviços em ritmo
acelerado. Daqui a cinquenta anos, é bem provável que boa parte das linhas de produção
e dos postos de atendimento que conhecemos hoje simplesmente não existam mais,
ocupados por máquinas e robôs humanoides ou a Inteligência Artificial. As evidências
estão mapeadas, conforme a Agência de Notícias do IBGE “De 2022 a 2024, percentual
de empresas industriais utilizando Inteligência artificial subiu de 16,9% para 41,9% […]
e a robótica 30,5%” Isso, por si só, não é nem bom nem ruim e é apenas um fato em
curso. A pergunta que realmente importa é outra: o que sustenta o consumo das
empresas quando o trabalho humano deixa de ser necessário?
O capitalismo, no fim das contas, depende de uma equação simples: alguém trabalha,
recebe um salário, e com esse salário compra o pão, a geladeira, os produtos que a
própria indústria fabrica. Um robô não recebe salário. Não compra pão. Não financia a
economia que o emprega. Se a produção passa a ser majoritariamente robótica e, ao
mesmo tempo, uma parcela cada vez maior de trabalhadores fica fora do mercado de
trabalho, sem renda, o sistema perde a própria razão de existir: produzir para quem, se
ninguém pode comprar?
A história já viveu um dilema parecido. No auge de sua expansão, o Império Romano
sustentou sua economia agrária com um fluxo constante de mão de obra escrava trazida
das conquistas territoriais, e essa mesma abundância expulsou artesãos e pequenos
agricultores livres para as cidades, gerando tensões sociais profundas, fato descrito por
José Jobson de A. Arruda e Nelson Piletti na obra “Toda a História” (1994). Quando as
conquistas cessaram e o fluxo de escravos diminuiu drasticamente, o modelo que
dependia dessa mão de obra entrou em crise interna e foi um dos fatores que corroeu as
bases do próprio Império, na chamada Crise do Século III. Trocando os personagens, os
escravos por robôs, expansão territorial por inovação tecnológica, a lógica de fundo é
semelhante: um sistema que se organiza em torno de uma forma de trabalho não
remunerado, sem repensar quem sustenta o consumo, carrega dentro de si o germe da
própria crise.
Isso não significa que a automação deva ser barrada, ao contrário, ela pode representar
uma libertação real do trabalho mais duro e mais explorado: aquele que obriga o
trabalhador acordar cedo, afastar-se da família, pagar creche e babá para receber, no fim
do mês, um salário que mal cobre as contas. O problema não é o robô. O problema é
insistir no mesmo modelo de sociedade enquanto se troca quem produz. É preciso uma
mudança na cultura da sociedade e entender que o bem-estar deve prevalecer sobre a
exploração.
Por isso, se a robotização vai acontecer de qualquer forma, a única saída racional é
desvincular parte das necessidades básicas da renda do trabalho. Água, energia e
alimento deveriam se tornar acessíveis, baratos ou gratuitos, não por generosidade, mas
por necessidade estrutural: mudando a forma das relações entre trabalho e capital para
uma sociedade mais justa e sem exploração, ou em termo marxista, sem mais valia. A
tecnologia sem essa reorganização não é progresso, é um Império Romano se repetindo,
só que em versão digital.
Israel Aparecido Gonçalves é Doutor em Sociologia e Ciência Política pela
Universidade Federa de Santa Catarina (UFSC) e Mestre em Ciência Política
pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Instagram @souprof.israel

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