Por Fernando Garayo

Poucos acontecimentos da história brasileira despertam tantas paixões quanto a Revolução Constitucionalista de 1932. Em São Paulo, ela é celebrada como uma luta heroica em defesa da Constituição e da democracia. Em outras regiões do país, durante décadas, foi apresentada como uma tentativa da elite cafeeira paulista de recuperar o poder perdido após a Revolução de 1930.
Afinal, qual dessas versões é verdadeira?
Para a maioria dos historiadores contemporâneos, a resposta é mais complexa do que os discursos políticos e as comemorações oficiais costumam sugerir.
O argumento paulista: uma luta pela Constituição
A narrativa mais conhecida sustenta que a revolução foi uma reação legítima ao governo provisório de Getúlio Vargas, que assumiu o poder após a Revolução de 1930.
Ao chegar ao governo, Vargas dissolveu o Congresso Nacional, suspendeu a Constituição de 1891, governou por decretos e nomeou interventores para os estados.
Sem Parlamento, sem eleições e sem Constituição, cresceu em São Paulo a reivindicação pela convocação de uma Assembleia Constituinte.
Nesse aspecto, os constitucionalistas defendiam um princípio fundamental de qualquer democracia: nenhum governante deve exercer poder ilimitado sem estar submetido a uma Constituição.
Sob essa perspectiva, a Revolução de 1932 antecipou uma discussão que continua atual: a necessidade de limites institucionais ao poder político.
A crítica dos historiadores
Outra corrente historiográfica lembra que São Paulo era o estado economicamente mais poderoso do país durante a República Velha.
Até 1930, paulistas e mineiros alternavam a Presidência da República na chamada política do “café com leite”. A chegada de Vargas rompeu esse equilíbrio e enfraqueceu as antigas oligarquias estaduais.
Por isso, muitos pesquisadores afirmam que parte da elite paulista participou da revolução também para recuperar a influência política perdida.
Segundo essa interpretação, havia interesses econômicos e regionais misturados ao discurso constitucionalista.
Isso, porém, não significa que o movimento tenha sido apenas uma disputa entre elites.
Uma revolução que mobilizou o povo
Se a liderança política era composta principalmente por setores tradicionais da sociedade paulista, a participação popular foi ampla.
Mais de 30 mil voluntários se alistaram.
Operários, comerciantes, professores, médicos, estudantes e agricultores integraram os batalhões.
Mulheres tiveram papel decisivo. Organizaram hospitais, costuraram uniformes, arrecadaram recursos e assumiram funções essenciais na retaguarda do conflito.
O movimento MMDC, criado após a morte dos estudantes Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo, tornou-se símbolo dessa mobilização popular.
A participação da sociedade demonstra que a revolução ultrapassou os interesses exclusivos das elites políticas.
A grande contradição
Existe uma ironia histórica.
Os revolucionários lutavam por uma Constituição.
Eles conseguiram.
Em 1934, Vargas convocou eleições para a Assembleia Constituinte e promulgou uma nova Constituição, incorporando importantes avanços:
- Voto secreto;
- Fortalecimento da Justiça Eleitoral;
- Ampliação dos direitos políticos das mulheres;
- Direitos trabalhistas;
- Jornada de oito horas;
- Férias remuneradas;
- Proteção ao trabalho feminino e infantil.
Entretanto, apenas três anos depois, em 1937, o próprio Vargas deu um golpe de Estado, fechou o Congresso, cancelou eleições e implantou o Estado Novo, uma ditadura que duraria até 1945.
A Constituição cuja convocação foi acelerada pelos acontecimentos de 1932 acabou sendo revogada pelo mesmo governo que a promulgara.
A memória e a identidade paulista
Em São Paulo, a Revolução Constitucionalista tornou-se um símbolo da identidade estadual.
O feriado de 9 de julho, o Obelisco do Ibirapuera e diversas homenagens públicas reforçam a ideia de que a luta representou um momento de defesa da legalidade.
Para muitos paulistas, 1932 continua sendo sinônimo de coragem cívica.
Já em parte da historiografia nacional, o episódio é visto de forma mais ampla, como resultado de uma disputa entre projetos políticos distintos para o Brasil.
A visão da historiografia contemporânea
Pesquisadores como Boris Fausto, José Murilo de Carvalho, Ângela de Castro Gomes convergem em um ponto importante: a Revolução Constitucionalista não pode ser reduzida a uma única explicação.
Ela reuniu interesses diferentes.
Havia empresários preocupados com a perda de influência política.
Havia líderes liberais comprometidos com a defesa da ordem constitucional.
Havia estudantes indignados com a ausência de eleições.
Havia trabalhadores que acreditavam lutar por um país mais democrático.
Todos esses grupos marcharam sob a mesma bandeira, ainda que por razões distintas.
O verdadeiro legado
A maior herança da Revolução Constitucionalista talvez não esteja na vitória ou na derrota militar, mas na mensagem que atravessou o tempo.
Ela demonstrou que a sociedade brasileira era capaz de pressionar um governo central para restabelecer instituições democráticas.
Também ensinou que Constituições não são meros documentos jurídicos. São instrumentos que limitam o poder do Estado, garantem direitos individuais e organizam a convivência democrática.
A história mostra que nenhuma revolução é completamente pura, nem completamente interesseira. Grandes movimentos políticos costumam reunir ideais, disputas de poder, interesses econômicos e aspirações populares.
A Revolução Constitucionalista de 1932 foi exatamente isso: um conflito marcado por contradições, mas cujo resultado ajudou a consolidar uma das ideias mais importantes da vida republicana brasileira, a de que governantes devem estar submetidos à Constituição e às leis, e não acima delas.
Fontes
- Boris Fausto. História do Brasil.
- José Murilo de Carvalho. Cidadania no Brasil: o longo caminho.
- Ângela de Castro Gomes. A Invenção do Trabalhismo e estudos sobre a Era Vargas.
- Marco Antonio Villa. 1932 – Imagens de uma Revolução.
- Edgar De Decca. 1930: O Silêncio dos Vencidos.
- CPDOC da Fundação Getulio Vargas.
- Arquivo Nacional.
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