
Há domingos que viram espelho. Portugal teve um desses. Diante das urnas, o eleitor português fez aquilo que a extrema-direita mais teme: compareceu, escolheu e disse “não”. Não foi um não tímido, desses cheios de vírgulas. Foi um não coletivo, amplo, ruidoso. Uma recusa que veio de vários cantos do espectro político e que, somada, deixou claro que o radicalismo autoritário pode gritar, mas ainda não convence a maioria.
Não se trata apenas de quem venceu. Trata-se de quem perdeu — e por quê. A extrema-direita foi derrotada não apenas por um partido, mas por uma ideia simples e poderosa: a democracia ainda importa. Importa mais do que o medo fabricado, mais do que o ressentimento organizado, mais do que a nostalgia de um passado que nunca foi tão glorioso quanto prometem nos palanques.
Portugal, com sua história marcada por uma ditadura que durou décadas, sabe reconhecer o cheiro do autoritarismo antes que ele tome a casa inteira. Talvez por isso tenha reagido. Talvez por isso tenha entendido que a política não é ringue de ódio, mas espaço de disputa de projetos — e que projeto baseado em exclusão, mentira e culto à força costuma terminar sempre do mesmo jeito.
Olhando de cá, do outro lado do Atlântico, a pergunta se impõe: e o Brasil?
Também aqui a extrema-direita tentou se vestir de novidade, mas governa falando como passado. Também aqui prometeu ordem e entregou caos; prometeu moral e praticou escândalo; prometeu patriotismo enquanto atacava instituições, imprensa, ciência e até a própria democracia. Ainda assim, segue viva — não porque seja maioria, mas porque grita alto, ocupa espaço e se alimenta da descrença.
Portugal mostra que há outro caminho. Que o eleitor não precisa escolher o ódio por cansaço. Que votar é, sim, um gesto político, mas também um gesto ético. Um gesto de quem entende que democracia não é perfeita, mas é infinitamente melhor do que qualquer aventura autoritária vendida como solução mágica.
As eleições deste ano no Brasil não serão apenas uma disputa entre nomes. Será um teste de maturidade democrática. Uma chance de responder se queremos continuar flertando com o abismo ou se aprendemos, enfim, a lição que os portugueses acabam de nos lembrar: extrema-direita não se normaliza se enfrenta — com voto, consciência e memória.
Portugal fez sua parte. Mostrou que é possível enterrar projetos autoritários sem tanques, sem golpes, sem atalhos. Só com democracia funcionando.
Agora, a bola está com o Brasil. E a história, como sempre, estará anotando tudo.
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