
Dizem por aí, com a segurança rasa dos preconceitos antigos, que homem não reza. Que homem aperta o punho, não junta às mãos. Que homem engole o choro e desconfia do silêncio. Pois entre os dias 6 e 8 de fevereiro de 2026, o Santuário Nacional de Aparecida respondeu a essa frase torta com uma multidão de respostas simples, profundas e humanas: homens de todas as idades, vindos de todos os cantos, rezando.
O Santuário amanheceu diferente. Não era apenas o sol refletindo no concreto monumental nem o som dos passos ecoando pelos corredores largos. Havia algo mais denso no ar — uma mistura de fé, cansaço de viagem, promessas antigas e pedidos novos. O 18º Encontro do Terço dos Homens não chegou gritando. Chegou rezando baixo, como quem sabe que o essencial não precisa de espetáculo.
Eles vinham em grupos, com camisetas iguais e histórias completamente diferentes. O jovem que ainda não sabe ao certo no que acredita caminhava ao lado do homem que já enterrou pai, mãe, sonhos e mesmo assim não perdeu a fé. O pai que reza pelos filhos andava junto do filho que, em silêncio, ainda tenta entender o próprio pai. Todos segurando o mesmo terço, como quem segura uma âncora.
Rezar, ali, não era gesto frágil. Era coragem. Era admitir limites num mundo que cobra força o tempo todo. Era reconhecer que há batalhas que não se vencem no grito, mas na persistência diária da oração repetida, conta por conta, como quem reconstrói a própria vida com paciência.
No altar, as palavras falavam de Maria, mas também falavam de trabalho, de desemprego, de vícios, de medo, de esperança. Falavam de um país cansado e de homens que, muitas vezes, aprenderam desde cedo a não falar sobre o que dói. O terço, então, virava língua. A oração virava discurso. A fé virava resistência.
À noite, o Santuário parecia respirar junto com eles. Um mar de homens em silêncio, quebrado apenas pelo ritmo das Ave-Marias, criava uma cena que não cabia em estatísticas nem em manchetes apressadas. Era literatura viva. Era o sagrado acontecendo sem precisar de metáfora.
Quem disse que homem não reza provavelmente nunca esteve ali. Nunca viu um homem ajoelhado pedindo força para não desistir do casamento. Nunca viu outro agradecendo por ter sobrevivido. Nunca percebeu que, às vezes, a fé é o único lugar onde o homem se permite ser inteiro — frágil, forte, contraditório, humano.
Ao final do encontro, eles voltaram para suas cidades levando pouco na bagagem e muito no peito. Voltaram para a rotina dura, para o relógio, para o ônibus cheio, para as contas. Mas voltaram diferentes. Porque quem reza aprende, ainda que lentamente, que não está sozinho.
E o Santuário, depois que eles foram, ficou em silêncio de novo. Um silêncio cheio de ecos. Como se ainda perguntasse, com ironia mansa e fé antiga:
quem foi mesmo que disse que homem não reza?
Descubra mais sobre NJ Notícias
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.






