Por Fernando Garayo

Há algo profundamente contraditório, e politicamente preocupante em um movimento que se apresenta como patriótico, mas que, ao mesmo tempo, deposita suas esperanças políticas na intervenção de uma potência estrangeira.
O Brasil é um país soberano. Seu território é brasileiro. Seu espaço aéreo é brasileiro. Seu mar territorial é brasileiro. E suas eleições são decididas pelos brasileiros.
Não deveria haver discussão sobre isso. O próprio Ministério da Defesa afirma que o Brasil exerce soberania exclusiva sobre seu território, seu mar territorial e seu espaço aéreo. Também estabelece que caiba às Forças Armadas garantir a soberania da nação e a integridade do território nacional.
Quando brasileiros passam a pedir interferência estrangeira na política nacional, a pergunta é: em que momento o patriotismo deixou de significar defender o Brasil para significar defender um projeto político, ainda que isso implique recorrer a outro país?
As imagens de manifestações brasileiras com bandeiras dos Estados Unidos e homenagens a Donald Trump, inclusive com um enorme boneco do presidente americano na Avenida Paulista durante o 7 de Setembro, produziu uma cena politicamente simbólica. Reportagem da RFI/UOL registrou justamente esse paradoxo: uma manifestação em defesa da soberania brasileira homenageando o líder de outra potência. Não se trata de demonizar os Estados Unidos. O Brasil mantém relações diplomáticas históricas com Washington, e relações internacionais pressupõem diálogo, comércio, cooperação e até divergências.
O problema começa quando uma potência estrangeira passa a ser apresentada como árbitra dos destinos políticos do Brasil.
Semana passada a Abin informou ao governo e ao Tribunal Superior Eleitoral que havia elevado a um nível de criticidade a possibilidade de influência dos Estados Unidos sobre as eleições brasileiras. O próprio presidente Lula afirmou que pediu a Donald Trump para não interferir nas eleições brasileiras, dizendo que a escolha dos brasileiros deve ser respeitada.
Ao mesmo tempo, reportagens revelaram que o governo Trump apresentou, durante negociações comerciais com o Brasil, exigências relacionadas à participação de “dissidentes políticos” nas eleições brasileiras de 2026. O governo brasileiro rejeitou as exigências como uma interferência em assuntos internos.
Mas há uma questão que independe dessa disputa: nenhum brasileiro deveria desejar que uma potência estrangeira decida o destino político do Brasil.
Nem Washington. Nem Pequim. Nem Moscou. Nem qualquer outra capital.
A história brasileira torna essa discussão ainda mais delicada. Em 1964, um golpe derrubou o presidente João Goulart e instaurou uma ditadura que duraria até 1985. Documentos preservados pelo Arquivo Nacional registram também o apoio do governo norte-americano à movimentação que resultou na ruptura institucional.
Mais de seis décadas depois, o Brasil deveria ter aprendido uma lição elementar: democracia não combina com tutela estrangeira. E tampouco combina com quartel transformado em árbitro da política.
As Forças Armadas brasileiras não existem para decidir quem deve governar o país. Sua missão institucional é defender a soberania, o território e os interesses nacionais, sob a autoridade constitucional.
Essa distinção é fundamental. O militar brasileiro não deve lealdade a Lula, Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, Tarcísio, Marina ou qualquer outro político. Deve lealdade à Constituição e ao Brasil.
Existe ainda uma fantasia perigosa alimentada por determinados setores políticos: a ideia de que, diante de uma crise institucional, as Forças Armadas poderiam novamente entrar em cena para “salvar” o país. Essa interpretação não encontra respaldo constitucional.
A própria estrutura institucional das Forças Armadas estabelece sua função de defesa da soberania e dos poderes constitucionais. Não lhes confere o papel de escolher governantes ou substituir os poderes democraticamente constituídos.
E aqui está uma das grandes ironias da política brasileira contemporânea. Alguns grupos que dizem defender a pátria parecem acreditar que os militares deveriam abandonar a Constituição para defender um determinado grupo político. Mas isso não seria defender a pátria. Seria justamente colocar uma facção acima dela.
Um soldado que defende o Brasil não pode defender um partido contra o Brasil, um general que respeita a Constituição não pode colocar sua instituição a serviço de um candidato. E uma instituição de Estado não pode transformar preferência política em doutrina militar. 2026 oferece às Forças Armadas brasileiras uma oportunidade histórica: demonstrar que aprenderam as lições de 1964.
Não se trata de apoiar Lula, não se trata de apoiar Bolsonaro, apoiar à esquerda ou à direita. Trata-se de compreender que o poder militar pertence à República, e não a um projeto político.
A maior demonstração de patriotismo das Forças Armadas não será escolher um lado da disputa eleitoral. Será justamente não escolher, será respeitar o resultado das urnas, defender a Constituição. Será impedir qualquer tentativa de ruptura institucional, venha ela de onde vier. Talvez essa seja a maior lição que o Brasil possa tirar de sua própria história.
Em 1964, parte das elites brasileiras acreditou que poderia convocar os militares para resolver uma crise política. O resultado foi uma ditadura de 21 anos. A história deveria ser suficientemente clara para que ninguém precise repetir a experiência.
Patriotismo não é bandeira estrangeira
É possível admirar os Estados Unidos, criticar os Estados Unidos, admirar Trump, é possível detestá-lo. Tudo isso faz parte da liberdade política.
O que não deveria ser normalizado é a ideia de que um governo estrangeiro tenha o direito de determinar quem governa o Brasil. Porque, quando isso acontece, a discussão deixa de ser esquerda contra direita. Passa a ser Brasil contra tutela externa.
É justamente aí que está o paradoxo mais doloroso de determinados discursos políticos contemporâneos: enquanto gritam “Brasil acima de tudo”, alguns parecem acreditar que o Brasil precisa da autorização de Washington para escolher seu próprio caminho. Não.
O Brasil não precisa de tutor, não precisa de padrinho estrangeiro, não precisa de general eleito por ninguém, e não precisa de salvador de farda.
Precisa apenas de uma coisa que deveria ser banal em uma democracia: brasileiros decidindo o futuro do Brasil, dentro da Constituição e respeitando o resultado das urnas. Patriotismo de verdade não é ajoelhar diante de uma potência estrangeira.
É defender a soberania do próprio país, inclusive quando o resultado das urnas não agrada.
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