Por Fernando Garayo

Autor de 1968: O Ano que Não Terminou, jornalista transformou a memória da ditadura militar em instrumento contra o esquecimento e a defesa das liberdades.
Morreu nesta terça-feira, (22), aos 95 anos, no Rio de Janeiro, o jornalista e escritor Zuenir Ventura, uma das figuras mais importantes da imprensa e da literatura brasileira. Membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), Ventura deixa obras marcadas pelo jornalismo de profundidade, pela defesa dos direitos humanos e pelo compromisso com a preservação da memória de períodos autoritários da história brasileira. Segundo informações.
Mais do que um escritor consagrado, Zuenir foi também uma testemunha da violência política praticada durante a ditadura militar brasileira. Sua experiência pessoal com a repressão ajudou a transformar sua produção jornalística em um registro histórico de uma geração que viveu censura, perseguição, prisão e cerceamento das liberdades.
Sua obra mais conhecida, 1968: O Ano que Não Terminou publicada originalmente em 1988 tornou-se um dos grandes clássicos da não ficção brasileira. O livro reconstrói o ambiente político, cultural e social de 1968, ano marcado pela morte do estudante Edson Luís, pela Passeata dos Cem Mil, pela repressão aos movimentos sociais e, finalmente, pela decretação do Ato Institucional nº 5, em 13 de dezembro daquele ano.
A relação de Zuenir Ventura com a ditadura não foi apenas a de um jornalista que observava os acontecimentos de fora. Após a decretação do AI-5, em dezembro de 1968, ele chegou a se esconder durante alguns dias. No início de 1969, porém, foi preso diante dos filhos pequenos e permaneceu encarcerado por cerca de três meses. Sua esposa, a jornalista Mary Akiersztein, também foi presa.
Anos depois, ao relembrar aquele período, Zuenir resumiria a situação enfrentada por jornalistas e intelectuais diante do regime autoritário: “Era impossível não tomar partido diante de uma ditadura que oprimia”. Disse Ventura.
A frase ajuda a compreender uma característica fundamental de sua trajetória: para Zuenir, o jornalismo não deveria ser confundido com militância partidária, mas a existência de um regime que restringia direitos fundamentais colocava o profissional diante de uma situação-limite.
Foi justamente o AI-5 que Zuenir transformou em um dos principais objetos de sua memória jornalística. O decreto ampliou drasticamente os poderes do regime militar, permitindo cassações, suspensão de direitos políticos, prisões e censura. O Congresso foi colocado em recesso e o habeas corpus para determinados crimes políticos deixou de existir.
Em artigo publicado décadas depois, Zuenir classificou o AI-5 como um dos maiores ataques às liberdades de expressão e aos direitos humanos praticados no Brasil no século XX. Sua obra não tratava 1968 como uma simples página do passado. Ao contrário: procurava demonstrar como as consequências daquele período continuavam presentes na sociedade brasileira. Daí o título que se tornou quase uma definição histórica: o ano que não terminou.
Zuenir Ventura construiu uma carreira de mais de seis décadas. Começou no jornalismo em 1956, como arquivista, e passou por veículos como Tribuna da Imprensa, Correio da Manhã, Fatos & Fotos, O Cruzeiro, Visão, Veja, IstoÉ, Jornal do Brasil e O Globo, e professor universitário.
Seu jornalismo se caracterizou pela pesquisa, pela reportagem de profundidade e pela preocupação em compreender os acontecimentos a partir de diferentes personagens e perspectivas. Essa característica ficou evidente também em Cidade Partida, livro no qual investigou a violência e as desigualdades sociais do Rio de Janeiro.
Em 1989, Zuenir realizou uma série de reportagens sobre o assassinato do ambientalista Chico Mendes. O trabalho lhe rendeu os prêmios Esso e Vladimir Herzog de Jornalismo e posteriormente deu origem ao livro Chico Mendes – Crime e Castigo.
A defesa dos direitos humanos, portanto, atravessou diferentes momentos de sua carreira: da repressão política à violência urbana e aos conflitos sociais.
A importância de lembrar
Ao escrever sobre a ditadura, Zuenir não estava simplesmente olhando para trás. Estava tentando impedir que a história fosse apagada, relativizada ou transformada em narrativa conveniente aos vencedores.
Em entrevista concedida por ocasião dos 50 anos do AI-5, ele advertiu para o perigo de negar ou minimizar os acontecimentos daquele período e voltou a defender a importância da memória histórica. Essa preocupação permanece particularmente relevante em sociedades que passaram por períodos autoritários.
A memória, nesse sentido, não é apenas uma homenagem ao passado. É também uma ferramenta para compreender como instituições democráticas podem ser enfraquecidas quando direitos fundamentais deixam de ser respeitados.
Eleito para a Academia Brasileira de Letras em 2014, sucedendo Ariano Suassuna na Cadeira 32, Zuenir tomou posse em março de 2015. Sua trajetória reuniu três dimensões que poucas vezes aparecem juntas com tamanha força: jornalismo, literatura e compromisso com a memória social.
O livro 1968º O Ano que Não Terminou tornou-se referência para compreender um dos momentos mais turbulentos da história brasileira. A obra chegou a vender centenas de milhares de exemplares e ajudou a formar gerações de leitores interessados em compreender não apenas o que aconteceu naquele ano, mas também suas consequências.
Zuenir Ventura deixa, portanto, mais do que livros, deixa uma advertência. A liberdade de imprensa não é um detalhe institucional. O direito de discordar não é concessão de governos. A memória das vítimas da repressão não é patrimônio de um partido ou de uma ideologia. E democracia não se sustenta apenas quando tudo vai bem. Ela se prova justamente quando alguém tenta silenciar o outro.
Zuenir passou a vida contando histórias de um país que conheceu a censura, a prisão e o medo. Seu maior legado talvez esteja justamente aí: lembrar que aquilo que aconteceu pode voltar a acontecer quando uma sociedade deixa de reconhecer os sinais do autoritarismo e aceita o esquecimento como política de Estado.
Aos 95 anos, morre o homem. Mas permanece o jornalista que ensinou que contar a história também pode ser uma forma de defender a liberdade. É por isso 1968 realmente nunca tenha terminado.
Descubra mais sobre NJ Notícias
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.






