Por: Fernando Garayo- Jornalista e Cientista Político

As vaias recebidas por Geraldo Alckmin na Marcha dos Prefeitos revelam mais do que um simples desconforto político. Elas mostram um país ainda intoxicado pela lógica do confronto permanente, onde parte da política brasileira desaprendeu a ouvir antes de atacar. O curioso é que, depois do barulho das vaias, vieram os aplausos. E isso talvez diga muito sobre o momento do Brasil: um país dividido, mas cansado da gritaria.
Ao afirmar que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não governa olhando a filiação partidária dos prefeitos, Alckmin tocou num ponto central da democracia federativa. Prefeito precisa de asfalto, creche, posto de saúde e verba para segurança — não de guerra ideológica. A população não mora dentro de hashtags; mora em bairros onde falta remédio, moradia e escola.
E é justamente aí que aparece a principal diferença entre o atual governo e o governo Jair Bolsonaro. Enquanto o bolsonarismo apostava na política do conflito permanente — transformando governadores, prefeitos, imprensa, universidades e até vacinas em inimigos — o atual governo tenta reconstruir a lógica institucional do diálogo. Isso não significa ausência de erros. Há críticas legítimas à gestão econômica, à lentidão de algumas entregas e até aos cortes pontuais realizados para cumprir metas fiscais. Mas existe uma diferença clara de prioridade política.
No governo Bolsonaro, o discurso de austeridade conviveu com cortes e congelamentos em áreas essenciais. O orçamento de 2022 previa cerca de R$ 139,9 bilhões para saúde e R$ 62,8 bilhões para educação, dentro da lógica do teto de gastos. Já nos anos recentes, relatórios do Tesouro Nacional apontaram aumento dos investimentos públicos em saúde, educação, habitação e segurança pública, com crescimento dessas áreas em relação ao PIB.
Na educação, a diferença é simbólica e prática. O governo Bolsonaro ficou marcado por cortes em universidades federais, ataques ideológicos a professores e um ambiente de hostilidade contra a produção científica. O atual governo retomou programas de bolsas, expansão de institutos federais e ampliação de verbas educacionais, ainda que enfrente limitações orçamentárias.
Na saúde, a comparação é inevitável porque a memória da pandemia ainda está viva. Bolsonaro transformou vacina em disputa ideológica e minimizou uma tragédia sanitária histórica. Hoje, o governo federal voltou a fortalecer campanhas de vacinação, ampliar o Farmácia Popular e aumentar os investimentos no SUS, apesar dos desafios fiscais.
Na moradia, programas habitacionais que haviam perdido força foram retomados com a volta do Minha Casa Minha Vida, recolocando a habitação popular como prioridade social. E na segurança pública, embora o problema continue grave e complexo, houve retomada de programas nacionais de combate ao crime organizado e cooperação federativa, em vez da simples política do slogan armado.
Talvez seja isso que incomode setores radicalizados: a política voltou a ser administração pública, negociação e construção institucional — menos espetáculo de redes sociais e mais disputa concreta sobre orçamento, prioridade e políticas públicas.
As vaias contra Alckmin mostram que ainda existe um Brasil movido pela polarização. Mas os aplausos posteriores revelam outra coisa: mesmo entre adversários, há quem reconheça que governar exige responsabilidade, equilíbrio e respeito às instituições. O país talvez esteja começando a perceber que patriotismo não é gritar mais alto; é garantir escola funcionando, hospital atendendo, moradia digna e segurança para quem acorda cedo todos os dias.
Descubra mais sobre NJ Notícias
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.






